Várias vezes nos perguntamos algo como “o que eu fiz para merecer isso?” em momentos de crise. É natural e humano achar que, se formos cordiais e bondosos em nossa conduta, seremos recompensados da mesma forma. Isso pode até ser verdade na maior parte dos casos no trato com outras pessoas, mas a o triste fato é que às vezes coisas ruins acontecem com gente boa. Basta abrir o jornal para ler notícias de crimes banais, catástrofes da natureza e outros eventos totalmente aleatórios que destroem vidas preciosas.
A teoria do universo justo
22/06/2011Inverno 2011
21/06/2011Em 2009 escrevi isto aqui, comentando sobre as propriedades do Solstício e sobre como o Inverno é minha estação favorita. Não obstante o fato que a estação começa um pouco quente para o meu gosto…
Mas espere um minuto. Começar? Por que, exatamente, dizemos que o Inverno começa hoje às 14:16, hora de Brasília?
Zenão e o tubo de pasta de dente
20/06/2011Você se levanta de manhã cedo, vai ao banheiro e lava o rosto. Ainda meio adormecido, pega aquele tubo de pasta de dente já no final e o espreme com um pouco mais de força do que usou no dia anterior. Dá certo; ainda tem um pouquinho de pasta de dente para você escovar e começar o dia.
Talvez você acorde muito sonolento, talvez tenha preguiça de abrir um tubo de pasta de dente novo, ou talvez tenha simplesmente esquecido de incluir esse item nas últimas compras. O fato é que na manhã seguinte o tubo quase vazio continua lá e você consegue espremer um pouco mais dele apertando um pouquinho mais forte. É de se perguntar: quanto exatamente ainda se pode tirar de um tubo de pasta de dente quase vazio?
Essa dúvida corriqueira não é muito diferente das situações propostas por Zenão de Eleia para confundir seus colegas filósofos. Um pré-Socrático tardio, Zenão buscou apoiar as noções de seu mestre Parmênides de que movimento, tempo e, de fato, a própria ideia de pluralidade eram ilusões dos sentidos. Ele raciocinava da seguinte forma: “como é possível terminar uma tarefa que tenha infinitos passos em uma quantidade finita de tempo?” — e buscava ilustrar esse raciocínio através do que ele chamou de paradoxos, palavra grega que significa algo como “contrário à razão”. Por exemplo, dizia Zenão, suponha que o herói Aquiles aposte uma corrida com uma tartaruga. Para dar ao bicho uma certa vantagem, Aquiles deixa a tartaruga partir de um ponto na metade da distância a ser percorrida. Ora, mas quando Aquiles tiver percorrido metade daquela distância inicial, a tartaruga terá andado um pouco mais. E quando Aquiles tiver percorrido metade daquela distância que agora o separa da tartaruga, o quelônio terá andado um bocadinho a mais — e assim por diante. A conclusão do filósofo é que, como há um número infinito de pontos que separam Aquiles da tartaruga, o herói jamais poderia alcançar o animal num tempo finito. Logo, diz o filósofo, o movimento é uma ilusão.
Um paradoxo ainda mais sutil é o da flecha. Suponha que um arqueiro dispare uma flecha visando um alvo cem passos adiante. Agora imagine o voo da flecha num dado instante qualquer antes dela atingir o alvo. Se pensarmos em cada instante como uma “fotografia” da flecha, podemos imaginá-la parada no ar. Zenão sustenta que naquele instante em particular, a flecha ocupa apenas o espaço que ela ocupa e não está se movendo para parte alguma. Mais ainda, a flecha não pode sair de onde está para outro lugar, porque não há tempo passando para que a flecha se mova. Ou seja, conclui Zenão, se em qualquer dado instante que imaginarmos a flecha está estacionária, então não apenas o movimento é uma ilusão, como o próprio tempo é uma ilusão.
Os paradoxos de Zenão divertiram e confundiram pensadores nos séculos e milênios seguintes. Hoje em dia, armado com Cálculo Diferencial, um cientista moderno poderia considerar os paradoxos de Zenão trivialmente simples de resolver, mas há quem diga que não é assim tão fácil: não é uma simples questão de soma, ou, para usar o jargão matemático, de convergência de soma de séries infinitas. Zenão jamais menciona somas em seus argumentos, mas sim um número aparentemente infinito de passos não-instantâneos para completar uma tarefa.
Entretanto, a flecha atinge o alvo, Aquiles ultrapassa a tartaruga e o seu tubo de pasta de dentes finalmente esvazia. Será que isso implica que tempo e espaço são entidades discretas, em vez de contínuas? Ou será que os matemáticos têm razão e Zenão só precisava aprender a somar séries infinitas?
Filosofices – lá fora
17/06/2011A vida está lá fora.
Trancado no meu cubículo, olhando sempre para a tela do computador, às vezes eu esqueço, mas a vida está lá fora. De noite geralmente estou estressado por causa do trânsito, com pouco tempo por causa de tarefas domésticas, atrasado com alguma conta no banco… mas a vida está lá fora.
Tenho que parar. Respirar. Ir ao teatro. Ir à praia, à floresta, à montanha. Experimentar o silêncio. Caminhar na rua. Tirar aquele livro da fila. Escutar aquela música. Estudar alguma coisa por prazer, não por obrigação.
A vida está lá fora. E se eu esquecer de olhar lá fora de vez em quando, a vida passa.
Fontes alternativas
01/06/2011As pessoas falam muito sobre energia renovável e limpa e sobre amplos investimentos em geração de energia eólica, solar ou de marés. Mas qual o impacto que a ampliação dessas matrizes causaria ao meio-ambiente? Podemos realmente dizer que canalizar os ventos da costa do Nordeste não causaria problema nenhum no sertão, por exemplo?
Até recentemente pensava-se que hidrelétricas eram limpas e tinham impacto ambiental irrisório. Eu temo que essas fontes ditas “alternativas” sejam um canto da sereia semelhante. Importantes, sim; mais limpas que as atuais, sem dúvida. Mas que não se caia no engano de achar que o impacto seria nulo.
A Humanidade é uma força geológica. Nada do que façamos tem impacto nulo no resto do planeta. Reflitam sobre isso.
Prioridades para refletir
02/05/2011Ainda estava digerindo o recente anúncio do fim do Projeto SETI quando a notícia do assassinato de Osama Bin Laden caiu como uma bomba nos noticiários de hoje. Isso e as recentes ações na Líbia e em inúmeras outras frentes de combate me puseram a pensar em como somos imediatistas em nossas prioridades.
Claro, não sou ingênuo a ponto de dizer que a caçada ao terrorista mais procurado do mundo não deva ser prioridade do governo dos EUA. Ou que cortes no orçamento não devam ser feitos para evitar uma nova crise financeira global. Mas considerem o seguinte: por uma fração minúscula do que se gasta com armamentos nas guerras do Ocidente, poderíamos manter o SETI funcionando por um ano. Confiram uma tabela comparativa feita pelo blog Microcosmologist e republicada pelo Bad Astronomer:
http://www.microcosmologist.com/blog/?p=769
Imagino que se possa argumentar que construir antenas para escutar ETs é algo muito menos importante do que construir hospitais, pagar a manutenção de estradas e, digamos, lançar bombas na cabeça de inimigos do mundo Ocidental. Junte-se a isso a falta de vontade de retomar a exploração do Universo (em missões tripuladas ou não) e o que temos é um grande conjunto de vozes que clamam pela resolução dos “problemas de verdade aqui na Terra” do que “ficar olhando para o céu”.
Entretanto eu creio que isso é uma miopia atroz. Sempre vai haver prioridades imediatas aqui na Terra, o que não quer dizer que devamos negligenciar a exploração espacial (ou, para citar um exemplo brasileiro, cortar o orçamento do Ensino Superior público). Este planeta não vai nos abrigar para sempre, nem os seus recursos durarão para sempre para que continuemos consumindo no ritmo desenfreado de hoje. E mesmo que consigamos nos acertar quanto ao desenvolvimento sustentável nas próximas décadas, o que francamente duvido, a estatística mostra que uma catástrofe cósmica ainda pode acontecer: um asteróide, um ciclo de tempestades magnéticas solares mais fortes, ou qualquer outra coisa que possa ameaçar seriamente toda a nossa espécie.
A Terra é bonita e confortável. Explorar o espaço é perigoso, caro, extremamente difícil e demorado. Mas se em algum momento de nossa história não tomarmos a decisão de arriscar um lance difícil e colonizar outros mundos, este planeta será o túmulo da Humanidade, assim como foi seu berço.
“The universe is probably littered with the one-planet graves of cultures which made the sensible economic decision that there’s no good reason to go into space–each discovered, studied, and remembered by the ones who made the irrational decision.”
-Randall Munroe, autor da tirinha acima.
Papo de maluco
18/04/2011Os diálogos a seguir aconteceram quase do mesmo jeito que está escrito:
Eu: “A Relatividade mostra como a o tempo pode ser encarado como uma quarta dimensão parecida com as três dimensões espaciais.”
Cético: “Não acredito nisso. Como se pode provar tal coisa?”
Eu: “Bem, todos os laboratórios do mundo observam efeitos de dilatação temporal todos os dias. Além disso existem muitos outros efeitos astronômicos e cotidianos que só podem ser explicados se a Relatividade estiver certa e…”
Cético: “Bobagem, não acredito em nada disso. Pra mim o tempo é absoluto.”
Eu: “…”
Tempos depois:
Eu: “Não acredito em coisas como Astrologia ou Homeopatia. Você pode me mostrar como tais coisas poderiam funcionar?”
‘Cético’: “VOCÊ é que não quer ver! Você tem a mente fechada e não percebe o mundo mais sutil ao seu redor!”
Eu: “Tá bom, então…”
Moral da história
Mantenha a mente aberta, mas não tanto a ponto de deixar seu cérebro escorrer pra fora.
Reality Check sobre a situação em Fukushima
05/04/2011Este é um post especial para complementar o que já escrevi hoje mais cedo. Como filtrar as centenas de notícias, tweets e artigos de blog que chegam das mais variadas fontes sobre a situação em Fukushima? Vou fazer um guia rápido aqui:
1 – A situação é séria. Muito séria. Se não fosse tão séria, não estaria repercutindo tanto assim. Desta forma, duvide muito de quem disser que está tudo tranquilo e que não vai ter problema nenhum. O fato é que a verdadeira extensão dos danos e das sequelas de Fukushima ainda são desconhecidas. E só saberemos mais depois que tudo estiver controlado.
2 – O Apocalipse Nuclear pintado pela mídia logo depois do terremoto é um cenário irreal. Usinas nucleares não explodem; e Fukushima não teve seus reatores expostos como em Chernobyl. China, Rússia e certamente EUA e Europa não precisam temer nuvens de contaminação radioativa. No próprio Japão, entretanto, os danos permanentes só poderão ser realmente avaliados depois que tudo estiver controlado.
3 – Não existem níveis seguros de exposição à radiação ionizante. Entretanto, estamos todos expostos à radiação ionizante do nascimento à morte. A estatística mostra que o corpo humano pode tolerar razoavelmente bem as doses a que os habitantes de Fukushima e vizinhanças foram expostos até agora — mas o vazamento no mar e a contaminação no solo precisam ser detidos logo.
4 – O complexo de Fukushima é antigo e ultrapassado. Ainda assim, resistiu a todos os terremotos japoneses dos últimos 30 anos, resistiu a um sismo 7 vezes mais forte para o qual foi projetado (e o mais forte já registrado em toda a longa história do Japão), e só apresentou problemas quando foi atingido por uma parede de água de 32 pés depois de tudo isso. Medite sobre o significado disso e compare com o que alguns estão falando sobre insegurança no planejamento de usinas nucleares.
5 – É possível que Fukushima se torne uma cidade-fantasma como Pripyat (Chernobyl) depois dos reatores serem controlados por causa da precipitação do césio-137. Também é possível que isso não seja necessário. Ainda não dá para dizer nada com certeza absoluta.
6 – Quanto mais certeza sobre as consequências do acidente um artigo qualquer demonstrar, tanto maior a chance de seu autor estar enganado. Prefira artigos que tenham (ou apontem links para) números sólidos de agências internacionais. Eu mesmo gosto de me informar na Agência Internacional de Energia Atômica – http://www.iaea.org/
7 – Informe-se corretamente. Você não procuraria um dentista para discutir detalhes de construção civil, nem veria um advogado para debater teoria literária. Procure por físicos e engenheiros nucleares para se informar sobre energia nuclear.
8 – Produção de energia 100% segura é impossível. Você pode se surpreender, mas mais gente morre por ano caindo de telhados ao instalar painés solares do que atingidos por radiação na indústria nuclear. Link: http://nextbigfuture.com/2011/03/deaths-per-twh-by-energy-source.html
Por fim, todos os anos morrem mais de trinta mil pessoas apenas em acidentes de trânsito no Brasil. Um número muito maior que esse ao redor do mundo morre em consequência das usinas de carvão; sem falar na mineração. Diante desses números de Guerra Mundial pouquíssimo se fala ou se protesta. Governos ao redor do mundo estão anunciando que vão rever seus projetos de construção de novas usinas nucleares, mas quantos estão comprometidos com investir em fontes limpas? Quantos estão orientando seus cidadãos para consumir de forma consciente? Quantos estão realmente empenhados em reduzir a dependência do petróleo?
Medite sobre isso também.
A situação em Fukushima
05/04/2011O episódio com minha participação no Rock com Ciência já está no ar, confiram lá!
Talvez vocês tenham se perguntado porque eu não escrevi antes sobre a situação em Fukushima depois do terremoto e tsunami que abalaram aquela usina nuclear. As razões foram duas: primeiro, as informações eram muito desencontradas e cada fonte dizia uma coisa. Eu rapidamente abandonei a mídia tradicional; de fato, a mídia tradicional fez uma tamanha bagunça a princípio, confundindo unidades, não explicando quanto tempo os trabalhadores e cidadãos de Fukushima ficaram realmente expostos etc. que se tornou impossível confiar nos relatos alarmistas repetidos em toda parte. Passei a seguir os boletins da Agência Internacional de Energia Atômica e, quando apareciam em inglês, os relatórios da Tokyo Electric Power Company, dona da usina.
Segundo, e muito mais importante, a situação lá continua a evoluir. Os trabalhos de emergência estão sendo muito limitados por causa da destruição no resto do país. No programa de rádio eu mencionei a origem da crise: a usina desligou automaticamente durante o terremoto e os sistemas de resfriamento entraram em ação – até serem derrubados pelo tsunami. Em seguida tudo continuou funcionando enquanto as baterias de emergência duraram; e só depois disso é que medidas de resfriamento alternativas tiveram que ser implementadas.
Enquanto escrevo estas linhas o maior problema agora é o despejo de césio e iodo na água do mar. Este é o desenvolvimento mais sério até hoje, mas ainda não atingiu um nível de catástrofe como Chernobyl. Pode vir a ser? Pode, mas eu acho que não. E não acho porque os núcleos dos reatores estão razoavelmente bem selados até agora. É melhor que o despejo de material contaminado no oceano seja contido nos próximos dias, mas por enquanto — por enquanto — uma catástrofe irreversível ainda não ocorreu.
Eu só espero que aqueles bravos trabalhadores da usina recebam as justas homenagens quando tudo isso passar.
Rock com Ciência!
01/04/2011Para começar a nova série de postagens de 2011 nada melhor que dar uma notícia boa: participei como convidado do programa “Rock com Ciência”, da Universidade Federal de Viçosa-MG, campus de Rio Paranaíba, falando sobre energia nuclear e radiação. São temas que sempre geram muita apreensão, especialmente após incidentes como esse agora de Fukushima, no Japão. Procurei dar um panorama geral do que é radiação e de como a energia nuclear é produzida, bem como acalmar um pouco o medo que cerca esse assunto.
O programa deve ir ao ar amanhã dia 02 de abril às 17 horas pela rádio Máximus FM em streaming e alguns dias depois estará disponível em formato de podcast. Quando isso acontecer eu abro uma outra postagem aqui para quem quiser debater mais sobre energia nuclear trocar uma ideia.
Enquanto isso, visitem o site www.rockcomciencia.com.br e curtam os vários episódios que já estão disponíveis! O programa sempre debate um tema científico ao som de rock and roll temático — informação e som de qualidade! Até lá!



