Posts Tagged ‘Brasil’

O verdadeiro teste

14/06/2013

Na última segunda-feira ainda estávamos discutindo os méritos das manifestações ocorridas em várias capitais sobre o recente aumento das passagens de ônibus. Como se sabe, a inflação voltou a exibir sua cara medonha, e o governo federal pediu aos prefeitos das maiores metrópoles que segurassem o aumento tradicional da virada do ano, para ajudar no controle da alta de preços. E como também se sabe, a despeito de mudanças dos juros e de desonerações de impostos, as passagens aumentaram agora. Como resposta, vários movimentos populares surgiram para protestar, exigindo que os preços voltassem ao patamar anterior, especialmente no Rio e em São Paulo, onde existe uma organização dedicada a exigir passe livre para transporte público. E ontem, dia 13 de junho de 2013, as maiores passeatas de protesto até agora foram reprimidas com tanta dureza que até mesmo a Folha de São Paulo amenizou o discurso intempestivo que vinha apregoando em seus editoriais (pelo menos por ora), depois que alguns de seus repórteres foram atingidos por balas de borracha. Ao menos nisso a democracia foi aplicada: sobrou porrada para todo mundo, sem distinção.

Não vamos torcer os fatos. Vandalismo é errado. Destruir a propriedade pública ou privada para protestar é errado. Não se tratava de nenhuma Tomada da Bastilha, não obstante as piadinhas exageradas que circulavam desde segunda-feira. É muito mais legítimo protestar, seja lá pelo que for, de maneira firme, porém pacífica. Nos protestos de ontem no Rio de Janeiro, relatos davam conta de que a própria multidão procurava impedir quando alguém tentava vandalizar alguma coisa. De fato, a bicho só pegou aqui no Rio depois que a maioria da manifestação já tinha se dispersado e ido embora, restando uns poucos que resolveram enfrentar os policiais. Como sempre acontece, relatos divergentes apareceram sobre quem teria provocado quem.

Mas será que os protestos são mesmo por causa do aumento da passagem? Eu penso que não. Acho que o aumento foi o derrame de uma fervura que já estava em ebulição lenta a algum tempo. A palha que quebrou a espinha do camelo, se quiserem. Por isso mesmo, suspeito que nos próximos dias veremos o verdadeiro teste sobre o caráter desses protestos.

Se os protestos morrerem sem que nada aconteça, terão se juntado à longa lista de manifestações frustradas deste país. Triste, mas nem um pouco inédito. Mas se prosseguirem, e se conseguirem forçar uma redução no preço das passagens, o caminho estará aberto para que outros movimentos surjam, talvez pedindo por coisas um pouco mais abstratas. Só que aí, na falta de um foco tão estreito como o de agora, será difícil animar as pessoas a sair de casa. É mais provável que os mesmos cínicos de sempre voltem às redes sociais para continuar lamentando o povo não se levanta para nada, em um exemplo de singular, canhestra e irônica passividade.

Ou seja, o verdadeiro teste do movimento não é se as passagens vão baixar ou não. É em como ele terá mudado cada uma de nossas reações depois que ele acabar.

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As melhores do ENEM

08/11/2010

Todo ano é comum rodarem dezenas de e-mails com supostas pérolas do vestibular — respostas idiotas de estudantes idem em questões discursivas para os concursos das universidades mais disputadas do país. A mais nova modalidade são “as melhores do ENEM”, o que é curioso, já que o ENEM é uma prova de múltipla escolha. Seja como for, a maior piada de mau gosto não são as atrocidades que os estudantes escrevem na prova e sim a própria prova — ou antes, a desorganização da mesma.

O ENEM, sigla para Exame Nacional do Ensino Médio, foi criado em 98 pelo MEC como forma de avaliar o desempenho dos alunos do Ensino Médio em todo o país e auxiliar no diagnóstico das deficiências em educação em todas as regiões. Somente a partir de 2009 o Exame foi reestruturado para servir como uma alternativa aos vestibulares tradicionais. No papel a ideia é ótima: 180 questões objetivas mais uma redação, divididas em dois dias de prova, e a nota do Exame pode ser utilizada como critério de ingresso em qualquer universidade que decida fazê-lo. As provas seguem a cartilha dos Parâmetros Curriculares Nacionais, o que significa que há muita interdisciplinaridade de uma questão para outra. Eu mesmo não gosto muito do que o PCN entende por “interdisciplinaridade”, mas isso é outra questão.

O problema é que desde o ano passado o ENEM está sofrendo com uma série de falhas, uma mais grotesca do que outra. De quem é a responsabilidade? Do MEC do Ministro Fernando Haddad? Do INEP, que tem um ano para elaborar as provas e emite declarações estapafúrdias depois que dá problema nos exames? Ou da gráfica, que é escolhida pelo menor preço? A jornalista Lucia Hippolito comentou esta manhã que o problema com o ENEM é o excesso de burocracia em Brasília aliado a uma certa megalomania de querer abarcar todo o sistema de ingresso ao Ensino Superior numa única prova com um país desse tamanho. Tais problemas impedem que o ENEM tenha aceitação em algumas das escolas superiores mais prestigiosas do país. Por isso mesmo há quem imagine esquemas mirabolantes para torpedear a iniciativa, mas a hipótese de Lucia Hippolito me parece mais próxima da verdade: numa operação deste tamanho, há muitos elos fracos a serem explorados, e muita margem para a incompetência alheia aparecerem.

Eu espero que seja apenas incompetência e não algum malfeito intencional, mas como diz o corolário à Lei de Clarke, “incompetência suficientemente avançada é indistinguível de malícia.”

ADENDO:

ENEM tanto ao mar, ENEM tanto à terra. Não acredito que haja uma burocracia tão irrevogavelmente mastodôntica assim à direita, nem que haja conspirações para desacreditar o exame à esquerda. São dois pontos centrais aqui:

1 – que o INEP tenha se mostrado incapaz de gerenciar as crises sucessivas do ENEM, chegando mesmo a dar declarações atrapalhadas dando a entender que iam punir alunos que estariam reclamando da prova no twitter;

2 – que o novo ENEM esteja com o foco “embaçado”, querendo abarcar coisas demais debaixo da mesma rubrica: avaliação de ensino médio, ingresso para universidades e outras coisas, como bem apontou Maria Luiza Abaurre, uma ex-assessora do INEP em entrevista à Carta Capital.

As análises da imprensa deveriam se centrar mais nesses dois pontos.

A primeira reflexão depois do voto

01/11/2010

O Tucanato não entendeu o recado. Do discurso mesquinho de Serra aos comentários acérbicos nas manchetes dos principais jornais, a impressão que tenho é que os líderes – e os eleitores – do PSDB preferirão continuar o enfrentamento em vez da oposição. Isso é ruim: é hora de vigiar e cobrar, sim, mas seria muito importante também entender a razão da derrota. E não foi outra senão a arrogância extrema de Serra.

Preocupa-me muito também o revanchismo e a raiva destilada desde São Paulo. Entendam de uma vez que São Paulo não é o Brasil e que São Paulo não é a única coisa que importa no país. Comentários preconceituosos vindos de lá sobre o papel do Nordeste estão francamente me assustando. Entendam também que, se Dilma teve 55 milhões de votos, se Serra teve 43 milhões, o não-voto em nenhum dos dois foi de mais de 35 milhões e cerca de 26% do eleitorado registrado. Essa multidão ruidosamente silenciosa não aprovou como a campanha foi conduzida. Suspeito que se o candidato do PSDB (e a direção da campanha) fosse outro, o PT teria perdido o Planalto.

E este é o recado que eu gostaria que os dois principais partidos e principalmente seus eleitores compreendam: a batalha passou, mas o país é um só. Não o dividam em nome do cálculo político.

Porque não vou à passeata hoje

17/03/2010

Hoje é o dia da passeata na Candelária contra a emenda Ibsen Pinheiro. Como se sabe, tal emenda propõe redistribuir os royalties do petróleo dos estados produtores. Se se tratasse apenas da partilha do dinheiro do pré-sal já seria uma discussão polêmica o bastante, mas ao menos seria sobre futuros rendimentos. A emenda Ibsen propõe refazer as contas dos royalties para que sejam distribuídos por todos os estados da União. Se aprovada, o Rio de Janeiro perderá algo como sete bilhões de reais.

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O incidente em Caetité

25/02/2010

Algo estranho acontece no município bahiano de Caetité desde o final do ano passado. Entre declarações conflitantes de autoridades das áreas nuclear e ambiental bem como da relutância do governo da Bahia em se envolver, ninguém parece explicar claramente o que acontece no local que contém as maiores operações de mineração de urânio do país.

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Resumo da Ópera

21/08/2009

Victor Barone é jornalista, poeta e blogueiro. Escreve com muita propriedade sobre os mais variados e complexos assuntos. Hoje fez um post em sua série fotojornalismo que resume bem o que estou sentindo depois do trágico (tragicômico?) desfecho da recente Crise do Senado. Vão lá e leiam.

Quanto a mim, que não gosto de usar este espaço para falar de política, só posso resumir o que sinto reproduzindo o comentário que deixei lá no Escrevinhamentos, o blog do Barone.

“Barone,

Eu, que até pouco tempo atrás me dizia de esquerda, nunca me preocupei com os compromissos necessários; elogiei a “Carta aos Brasileiros”; aplaudi a manutenção das políticas econômicas; achei pragmatismo uma aliança estratégica com ACM e Sarney no primeiro turno de 2004 (motivado, lembremos, pelo torpedeamento da candidatura de Roseana Sarney no PFL que foi impetrado por Serra); etc. etc. etc… percebi que de acomodação em acomodação, se não nos cercamos de mil cuidados, nos tornamos aquilo que mais criticamos.

Lembra do último parágrafo de “A Revolução dos Bichos”? Foi exatamente o que aconteceu com o PT. E se você se sente um idiota, eu não tenho consolo algum a oferecer além de dizer que me sinto ora como o burro daquela história, ora como o cavalo…

Hoje tô a fim de encher a cara.

Abraços,
Daniel”

* * *

E basta de política por enquanto. Semana que vem teremos ciência de novo.

Da falta de oportunidades e da valorização de títulos acadêmicos

09/06/2009

Leio no Blog do Luis Nassif a carta de um jovem acadêmico lamentando a falta de oportunidades para Mestres e Doutores recém-formados. O rapaz afirma ainda que ele e a noiva (também ela titulada e incapaz de trabalhar em sua área) decidiram emigrar em busca de novas oportunidades.

O assunto não é novo e dificilmente se pode dizer que há consenso quanto às causas da pouca absorção de toda essa gente qualificada pelo mercado. Sobram achismos e evidências anedóticas; especialmente sobre o que emigrantes brasileiros encontrarão num país estranho. Falarei da emigração noutra hora. Hoje quero comentar sobre essa falta de oportunidades.

Por inúmeras razões históricas, o Brasil escolheu investir em matéria-prima e nem tanto em bens de consumo. É só ver o nosso portfólio de exportação para saber do que falo. Assim é que quando a indústria precisa de algum desenvolvimento tecnológico prefere pagar por algo já pronto. Por si só isso não tem nada de ruim e é uma decisão de negócios inteligente, dado que somos mesmo atrasados. Mas raras são as empresas que investem ativamente em pesquisa para que seja possível quebrar esse ciclo a médio ou a longo prazo. Sem esse investimento – e conseqüentemente sem a demanda necessária por conhecimento técnico – não é surpresa alguma que o mercado não consiga absorver profissionais com vários títulos acadêmicos.

Que existam milhares de pessoas com diplomas de Ensino Superior não ajuda também. Lá pelos anos 90 criou-se a exigência de diploma para cargos que qualquer um com curso técnico equivalente ao Ensino Médio poderia ocupar. Ao nivelar artificialmente a competição no terceiro grau as empresas criaram as condições para saturar o mercado com diplomas.

O que dizer da opção pelo emprego público? Nas universidades públicas um professor doutor titular com dedicação exclusiva ao ensino e pesquisa ganha algo em torno de R$ 6 mil. Um professor auxiliar ganha substancialmente menos. As vagas para titular são raras e disputadíssimas, pois dependem da aposentadoria do ocupante anterior ou da abertura de novas universidades – o que de fato tem acontecido recentemente, mas não o bastante para absorver todo mundo.

Fora da Academia existem outras chances no emprego público, claro, mas nem todas são tão atraentes assim. Recomendo abrir a Folha Dirigida e ler os editais dos grandes concursos para ensino superior. A grande maioria pede extenso conhecimento legal. Isso para não falar na disparidade de salários entre os cargos específicos para Direito e os demais. Já vi salários de 14 mil, 19 mil ou até mais; tudo isso em regime estatutário. Cargos para outras áreas são muito menores, além de serem regidos pela CLT.

Minha impressão é que o país continuará tendo excesso de pessoal super-qualificado enquanto não deixar de ser um país de Serviços. É muito fácil criticar os acadêmicos de falta de empreendedorismo, por exemplo. Difícil é entender que sem pesquisa pura – e por que não dizer, sem conhecimento teórico – pouco conhecimento prático novo pode ser adquirido.

Produtividade científica em alta

07/05/2009

Leio n’O Globo que o Brasil ultrapassou a Rússia e a Holanda em número de publicações científicas em revistas indexadas – ou seja, aquelas cujos critérios de seleção são muito rigorosos. A informação vem da NSI, ou National Science Indicators, uma das maiores bases de dados científicas do mundo.

Eu gostaria de ter acesso aos dados da NSI (são vendidos junto com um programa deles que indexa tudo) para ver, por exemplo, a quantidade de citações de artigos de cientistas brasileiros em outras publicações; ou ainda quais áreas de pesquisa produziram mais. Mas certamente é uma boa notícia!

Semanas atrás eu conversava com meu ex-orientador sobre o gargalo técnico que existe no país e como os sucessivos governos estavam percebendo que para continuar com uma economia saudável era preciso desesperadamente aumentar a oferta de mão-de-obra qualificada. Por exemplo: o Brasil precisa melhorar o controle de suas instalações radioativas, o que só será possível quando tivermos técnicos capacitados em número suficiente! A mesma coisa pode ser dita de nossas exportações, que precisam de critérios de aferição cada vez mais rigorosos e modernos. Ainda segundo o meu ex-orientador o atual governo federal tem investido bastante no ensino técnico e no ensino superior fora do eixo Rio-São Paulo. Talvez esse aumento do índice brasileiro no NSI seja já um reflexo disso. 

Eu espero que os próximos governos e empresários se deem conta de que uma nação moderna precisa continuar investindo pesadamente em ciência e tecnologia se quiser permanecer relevante no mundo. E espero mais ainda que o povo perceba que nem só de bicos e diplomas de “faculdades instantâneas” se constróem carreiras.

Notas Aleatórias 2

05/05/2009

Leio na UOL que vários títulos de eleitor em todo o país foram cancelados pela ausência contínua e injustificada nas últimas eleições. Todos sabemos que o voto é obrigatório no Brasil. Há quem seja contra e há quem seja a favor. Sou contra por considerar que o Estado não tem que tutelar o cidadão como se ele fosse uma criança incapaz, entre outras razões; mas esse não é realmente o ponto. Não questiono que esta seja a lei e sim a estupidez da lei. Vejam o trecho a seguir:

“O eleitor que tiver o título cancelado fica sujeito a uma série de sanções. Ele não pode, por exemplo, se inscrever em concurso público. Também fica proibido de participar de concorrência pública ou administrativa da União, Estados, territórios, Distrito Federal, municípios e autarquias.

Também não pode obter empréstimo em estabelecimentos de crédito mantido pelo governo. O eleitor com título cancelado fica impedido de obter passaporte.

Em outras palavras, porque o cidadão deixou de votar e não justificou depois de N ausências… ele deixa de ser cidadão.