De crises de descrença, misticismos e mistificações

Já faz algum tempo que ando passando pelo que chamo de “crise de descrença”. Não é que eu tenha subitamente voltado à igreja cristã que eu frequentava na juventude, nem que tenha me convertido a alguma nova seita. Não, continuo o mesmo cético de sempre, mas apenas… bem, apenas tenho o costume de questionar tudo o tempo todo, até mesmo o meu ateísmo. Não vou comentar muito sobre isso por aqui, já que é algo extremamente pessoal, mas a nota merece aparecer por uma questão de integridade intelectual.

O curioso nessas horas é que sempre começamos a prestar atenção em textos e ideias religiosas que de outra forma passariam batidas. No meu caso, acabei esbarrando num trecho interessante sobre a natureza do Budismo – sobre o que ele não é, segundo o autor.

Desde que deixei de me identificar com o cristianismo, o budismo sempre me pareceu uma opção interessante. É uma religião, claro, mas é uma religião com uma filosofia bastante peculiar. Sou muito atraído por alguns de seus ensinamentos, em particular os que falam sobre desapego, sobre a necessidade da anulação dos egoísmos e, pelo menos de acordo com o atual Dalai Lama, sobre a saudável relação que se deve manter com o ceticismo. Enfim, gostei muito do blog “Sobre Budismo”, linkado aí em cima, e sobre a listinha elaborada. O site faz parte de um anel de outras páginas budistas, quase todas tão interessantes quando o blog. O legal a respeito da maior parte das vertentes do budismo é que elas orientam seus praticantes a não seguir cegamente orientação alguma, mas que continuem sempre em busca, testando o conhecimento adquirido para ver se continua sendo útil em suas vidas.

O maior problema com as vertentes do budismo que conheci, entretanto, é que elas não parecem seguir o próprio conselho.

Vejam, não estou querendo generalizar. Não me considero especialista, de modo algum. E nunca realmente pesquisei o budismo a fundo (isso pode mudar em breve). Mas todas as vezes que encontrei templos, páginas ou qualquer material dedicado à religião, sempre me pareceu que havia um “pacote” a ser adquirido pelo praticante — reencarnação, transmigração, veneração de gurus ou personalidades específicas, e por aí afora. Ou seja, como em todas as religiões que encontrei nesta vida, me parece que os vários tipos de budismo também sofrem de pequenos dogmas que, para mim, são meio impalatáveis. Especificamente, vasculhando no anel de páginas budistas acima mencionado, encontrei um convite para uma palestra (paga, é óbvio) sobre física quântica e espiritualidade, apoiada por um tal “Instituto Sabedoria Quântica”. Uau.

Eu realmente não entendo. De todas as religiões que conheci, o Budismo é, de longe, a que me soa mais interessante. E mesmo assim, tem gente que parece não se contentar que ela forneça um arcabouço filosófico capaz de enfrentar as questões espirituais da existência — não, essa gente precisa que sua crença favorita também forneça respostas prontas para a natureza física do universo. E isso, crise de descrença ou não, eu nunca mais vou conseguir engolir.

Talvez fosse a hora para os religiosos encararem suas crenças de frente e entenderem que as dúvidas e os questionamentos podem ser muito mais frutíferos do que as respostas prontas — que dúvidas e questionamentos podem ser um bom caminho para alcançar a tal da serenidade e da sabedoria que todas as religiões prometem. Qualquer que seja o resultado da minha crise de descrença, acho que meu caminho deve ser esse. Vamos ver até onde ele vai…

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