Posts Tagged ‘Ceticismo’

De crises de descrença, misticismos e mistificações

08/08/2013

Já faz algum tempo que ando passando pelo que chamo de “crise de descrença”. Não é que eu tenha subitamente voltado à igreja cristã que eu frequentava na juventude, nem que tenha me convertido a alguma nova seita. Não, continuo o mesmo cético de sempre, mas apenas… bem, apenas tenho o costume de questionar tudo o tempo todo, até mesmo o meu ateísmo. Não vou comentar muito sobre isso por aqui, já que é algo extremamente pessoal, mas a nota merece aparecer por uma questão de integridade intelectual.

O curioso nessas horas é que sempre começamos a prestar atenção em textos e ideias religiosas que de outra forma passariam batidas. No meu caso, acabei esbarrando num trecho interessante sobre a natureza do Budismo – sobre o que ele não é, segundo o autor.

Desde que deixei de me identificar com o cristianismo, o budismo sempre me pareceu uma opção interessante. É uma religião, claro, mas é uma religião com uma filosofia bastante peculiar. Sou muito atraído por alguns de seus ensinamentos, em particular os que falam sobre desapego, sobre a necessidade da anulação dos egoísmos e, pelo menos de acordo com o atual Dalai Lama, sobre a saudável relação que se deve manter com o ceticismo. Enfim, gostei muito do blog “Sobre Budismo”, linkado aí em cima, e sobre a listinha elaborada. O site faz parte de um anel de outras páginas budistas, quase todas tão interessantes quando o blog. O legal a respeito da maior parte das vertentes do budismo é que elas orientam seus praticantes a não seguir cegamente orientação alguma, mas que continuem sempre em busca, testando o conhecimento adquirido para ver se continua sendo útil em suas vidas.

O maior problema com as vertentes do budismo que conheci, entretanto, é que elas não parecem seguir o próprio conselho.

Vejam, não estou querendo generalizar. Não me considero especialista, de modo algum. E nunca realmente pesquisei o budismo a fundo (isso pode mudar em breve). Mas todas as vezes que encontrei templos, páginas ou qualquer material dedicado à religião, sempre me pareceu que havia um “pacote” a ser adquirido pelo praticante — reencarnação, transmigração, veneração de gurus ou personalidades específicas, e por aí afora. Ou seja, como em todas as religiões que encontrei nesta vida, me parece que os vários tipos de budismo também sofrem de pequenos dogmas que, para mim, são meio impalatáveis. Especificamente, vasculhando no anel de páginas budistas acima mencionado, encontrei um convite para uma palestra (paga, é óbvio) sobre física quântica e espiritualidade, apoiada por um tal “Instituto Sabedoria Quântica”. Uau.

Eu realmente não entendo. De todas as religiões que conheci, o Budismo é, de longe, a que me soa mais interessante. E mesmo assim, tem gente que parece não se contentar que ela forneça um arcabouço filosófico capaz de enfrentar as questões espirituais da existência — não, essa gente precisa que sua crença favorita também forneça respostas prontas para a natureza física do universo. E isso, crise de descrença ou não, eu nunca mais vou conseguir engolir.

Talvez fosse a hora para os religiosos encararem suas crenças de frente e entenderem que as dúvidas e os questionamentos podem ser muito mais frutíferos do que as respostas prontas — que dúvidas e questionamentos podem ser um bom caminho para alcançar a tal da serenidade e da sabedoria que todas as religiões prometem. Qualquer que seja o resultado da minha crise de descrença, acho que meu caminho deve ser esse. Vamos ver até onde ele vai…

Aconteceu

21/06/2013

Autores

E aconteceu.

Grato a todo mundo que esteve lá, ainda que em espírito!

Pura Picaretagem já está disponível nas melhores livrarias e também na Amazon.com.br em forma de ebook!

Loterias quânticas

06/06/2013

Tenho que confessar uma coisa a vocês: eu adoro jogar na loteria. Um professor do Ensino Médio uma vez me disse que “quem sabe matemática não joga na megassena”. Ele não deixa de ter razão. Afinal, uma aposta simples de seis dezenas tem mais ou menos 1 chance em 50 milhões de ganhar. Isso significa que você poderia jogar uma vez por semana todas as semanas e ainda assim levaria algo como um milhão de anos para acertar a sena. E mesmo assim, a chance para quem joga é maior do que zero — então toda vez que o prêmio acumula um bocado, lá vou eu apostar um bilhetinho.

O que a gente não costuma se dar conta é que o nosso cotidiano, todo ele, é definido por um quantidade incontável de pequenas loterias quânticas. O elétron vai para aquele caminho, ou por outro? O átomo vai decair agora, ou daqui a pouco? Aquela célula importante vai se copiar direitinho, ou vai ocorrer uma mutação imprevisível?

A física quântica tem fama ser difícil de compreender. De fato, há muita coisa contraintuitiva nos fundamentos dessa área da ciência. Sempre tive a impressão que a origem dessa dificuldade está no caráter estatístico dos fenômenos quânticos. Enquanto que do lado de cá da realidade sempre podemos dizer se uma bolinha atirada para um cachorro pegar saiu pela porta ou pela janela, no mundo dos fenômenos quânticos é razoável dizer que um elétron ou um fóton passa por todas as fendas de uma retícula — e não uma ou outra em particular. Aliás, podemos até montar um experimento que detecte por qual fenda uma partícula “escolha” passar, mas aí o resultado final do experimento será muito diferente.

O caráter estatístico da física quântica gerou discussões apaixonadas nas primeiras décadas do século XX entre físicos e filósofos justamente por esse motivo. Algumas pessoas — Einstein, notadamente — não aceitavam que uma partícula real como um fóton ou elétron pudesse não ter coisas como trajetórias definidas, ou posições definidas, ou qualquer outra propriedade perfeitamente definida, não obstante nosso desconhecimento sobre essas mesmas propriedades. Para esses críticos da mecânica quântica, logo apelidados de Realistas, as probabilidades das equações da mecânica quântica representavam apenas o nosso grau de ignorância sobre as características do estado quântico em questão. Mas elas deveriam existir em princípio, ainda que inacessíveis.

Em contraposição aos Realistas estava a interpretação Ortodoxa da física quântica — não deveríamos nos preocupar com o caráter estatístico dos fenômenos quânticos, porque observamos coisas assim em nosso dia-a-dia sem pestanejar. Quando o globo com as bolinhas numeradas que vão sortear as dezenas da megassena está girando, nenhuma das dezenas está definida ainda. Há 1 chance em 60 de que uma dezena em particular será a primeira a sair do globo, mas não se pode dizer que a dezena “já exista” e nós é que não a conhecemos. Ela passa a existir somente depois de ter sido sorteada. Eu não levei a megassena acumulada de ontem, mas assim que o prêmio crescer de novo, vou fazer mais uma aposta…

A linha de transição entre o mundo macroscópico e o microscópico, onde valem as regras estatísticas da física quântica não é bem definida. Sabemos apenas que em sistemas compostos por um grande número de partículas — ou seja, no lado de cá da realidade, no mundo macroscópico cotidiano — todas essas pequenas flutuações e variações quânticas acabam tendendo para uma média e é essa média que vemos acontecer. A bolinha lançada para que nosso cachorro pegue vai sair pela porta, ou pela janela, sem dúvida alguma.

Falamos sobre esta e outras características fascinantes da física quântica em Pura Picaretagem, cujo evento de lançamento vai ser no dia 20 de junho às 19h na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Espero por vocês lá!

Amálgama

03/06/2013

Eu planejava anunciar esta novidade primeiro, mas aí veio o livro e é claro que ele ganhou precedência nos destaques. Mas agora é uma boa hora: desde o ano passado venho escrevendo sobre ciência e fazendo resenha de livros para o Amálgama, site sobre atualidades, sociedade e cultura que vem abrindo espaço para outros temas. Recebi o convite para começar a resenhar livros para lá e, tendo finalizado o livro, propus escrever uma coluna semi-irregular sobre física também. Meu xará e editor do site, Daniel Lopes, caiu na minha esparrela e lá estou!

Resenhei três livros até agora e acabo de publicar a sexta coluna sobre física. Já fiz algum barulho sobre minha produção no Amálgama no twitter e no Facebook, então é possível que vocês já tenham lido meus textos. O mais fresquinho é este aqui, sobre disputas científicas de popularidade e teorias alternativas ao Modelo Padrão da Cosmologia. Clicando em “Colaborações de Daniel Bezerra” é possível acessar os outros artigos.

Conciliar tradução, divulgação da própria obra, tocar outros projetos de livros e cuidar da casa e da família não é tarefa das mais fáceis, mas estou tentando justamente me disciplinar um pouco mais para dar atenção a tudo isso sem prejuízo para nenhuma parte.

Em tempo e a propósito, minha conta no Formspring continua ativa, depois de rumores que o site de perguntas e respostas seria fechado e foi aparentemente salvo. Assim sendo, se alguém tiver dúvidas… Pergunte a um Físico!

Viés de confirmação

30/05/2013

Saturday Morning Breakfast CartoonNum mundo de acesso rápido e quase ilimitado à informação, por que as pessoas se deixam enganar por produtos como colchões bioquânticos ou pulseiras harmonizadoras de energia? Não tenho uma resposta na ponta da língua, mas desconfio de algumas coisas.

Tomemos o recente caso dos boatos sobre o cancelamento do programa Bolsa-Família, por exemplo. Não sabemos quem originou a história, nem com que propósito em mente, mas observamos que 1- os boatos se espalharam como fogo em palha; 2- logo em seguida à confusão, dezenas de teorias conspiratórias sobre a origem dos primeiros boatos se espalharam com igual velocidade, cada uma suspeitando de seus alvos prediletos de antipatia. Todas tinham uma coisa em comum, entretanto: eram pura especulação sem base alguma em fatos. Quem acredita nesta ou naquela teoria sobre os boatos do Bolsa-Família o faz não porque tenha visto provas contundentes, ou porque esteja acompanhando de perto as investigações da Polícia Federal, mas porque calhou de encontrar uma ideia que confirme os sentimentos anti- ou pró-governamentais que já existiam em sua mente.

Suspeito que um processo semelhante ocorra com as famigeradas pulseiras Power Balance. Na seção de informações do site que as vende, seus fabricantes alegam que os hologramas especiais foram criados seguindo “as ideologias orientais sobre energias” (sic) e que, embora não possam provar que as pulseiras tenham qualquer espécie de benefício para a saúde (trecho, aliás, que foram obrigados a acrescentar pelo governo australiano), recomendam a seus usuários que decidam baseados em suas experiências pessoais. Ou seja, se o comprador estiver predisposto a acreditar que um holograma adesivo desenhado “de acordo com filosofias orientais” fará bem à sua saúde, bem, provavelmente ele vai comprar e usar o tal holograma. Se vai funcionar mesmo é outra história (dica: não vai).

Isso é o que se costuma chamar de viés de confirmação: nossa tendência a aceitar como corretas teorias, ideias, ideologias que reafirmem aquilo em que já acreditamos. É preciso ter um cuidado todo especial para filtrar essas ideias mais simpáticas. Dá trabalho e é muitas vezes desagradável questionar ideias que nos são confortáveis – mas uma das formas mais eficientes de construir conhecimentos úteis.

Mais sobre esse assunto no livro Pura Picaretagem, que escrevi em parceria com o jornalista Carlos Orsi, e que será lançado no dia 20 de junho na Livraria da Travessa do Shopping Leblon às 19h. Aguardamos vocês lá!

Mapa e território

23/05/2013

Num mundo de smartphones, comunicação global quase instantânea e de fácil acesso à informação, às vezes é difícil lembrar que por trás de cada uma dessas inovações existe um longo processo de tentativa e erro, e que o caminho quase nunca é uma linha reta. Ao contrário, para cada nova descoberta científica ou aplicação tecnológica, foi preciso um longo tempo para que as ideias que as formaram viessem a amadurecer e a se concretizar. Nós, cidadãos do século XXI, talvez estejamos mal-acostumados. Temos mais informação disponível na ponta dos dedos do que somos realmente capazes de usar. Geladeiras inteligentes começam a aparecer nas casas mais abastadas. É cada vez mais difícil encontrar um aparelho qualquer que não contenha — ou não seja, em essência — um computador. As respostas a qualquer pergunta são fáceis de encontrar. Dúvidas são rapidamente substituídas por certezas prontas. Por tudo isso é difícil entender que às vezes até mesmo a ciência pode cometer erros factuais.

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Picaretagens Quânticas

21/05/2013

econvite-pura-picaretagem E chegou o dia!

Ao reabrir o blog eu disse que muitas novidades vinham por aí. Eu me orgulho em apresentar a primeira e talvez maior delas: meu primeiro livro publicado, escrito em parceria com o jornalista paulista Carlos Orsi. Em Pura Picaretagem tratamos de explicar o que é essa tal de física quântica — como nasceu, por que nasceu, o que ela diz e por que não é tão misteriosa quanto alguns dizem. E mais, explicamos porque a física quântica de verdade não tem nada a ver com os embustes que se vê por aí em livros e palestras de auto-ajuda.

O mundo está cheio de “Picaretas Quânticos”, pretensos especialistas que adoram usar jargão científico para confundir o cidadão leigo. Daí aparecerem buzzwords tais como “ativismo quântico”, “cura quântica” e tantas outras bobagens. Quem nunca ouviu um amigo ou parente, ou nunca assistiu um vídeo na internet em que um desses picaretas afirma que “a física quântica provou a existência da alma”, ou “a física quântica é o segredo por trás do pensamento positivo”. No livro, Carlos e eu mostramos o arcabouço científico que levou à criação da física quântica de verdade e exploramos algumas de suas consequências para mostrar que sim, esse ramo da ciência pode ser contra-intuitivo, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.

Pura Picaretagem nasceu de conversas online com Carlos Orsi, que na época era blogueiro de ciências do jornal O Estado de São Paulo. Em 2010 ele escreveu este artigo, em que tratava justamente desses temas. Na ocasião, o Brasil estava para receber a visita de Masaru Emoto, o famigerado proponente da “teoria” da memória emotiva da água. Em comentários com Carlos via twitter e mensagens pessoais, a ideia para o livro surgiu, e decidimos investir nela. Graças a um contato do Carlos com , conseguimos um acordo com a editora LeYa (a mesma que publica Guerra dos Tronos no Brasil, olha que chique!) e a bola começou a rolar. O que se seguiu foram três anos de pesquisa, conferências via skype (eu nunca tinha encontrado o Carlos ao vivo, só o conheceria em pessoa por ocasião do lançamento do seu O Livro dos Milagres pela Vieira & Lent, aqui no Rio) e muito trabalho para produzir, revisar e aguardar o processo editorial do livro. De lá para cá Carlos deixou o Estadão (para o prejuízo do jornal, eu acho!), mas mantém um blog constantemente atualizado cuja leitura regular eu mais que recomendo.

Eu sinceramente espero que Pura Picaretagem seja o primeiro de muitos livros — ideias não faltam — nessa senda de obras de ceticismo e divulgação científica. O evento de lançamento será na Livraria da Travessa do Shopping Leblon aqui no Rio de Janeiro, dia 20 de junho, às 19h. Cliquem no convite virtual abaixo para serem levados à página de Facebook da festa. Aguardamos vocês por lá!

Evento de lançamento de "Pura Picaretagem". Apareça!

O soneto e a emenda

07/04/2012

A gafe cometida pela Scientific American Brasil, referenciada no post anterior, rendeu muito na última semana. Dezenas de cartas de leitores foram enviadas para a revista criticando ou solicitando esclarecimento quanto aos critérios utilizados para a publicação da infeliz nota da bióloga Nina Ximenes defendendo a homeopatia. Muitos blogs brasileiros também comentaram a nota, lamentando a decisão de publicá-la.

Não sei qual teria sido a resposta do professor Ulisses Capozzoli, editor da SciAm Brasil, se as críticas tivessem ficado restritas ao âmbito nacional. O fato é que o leitor Felipe Nogueira, que também comentou o meu artigo anterior, tomou a iniciativa de entrar em contato com o blog americano Science Based Medicine, comentando a publicação da nota de Nina Ximenes e vertendo o texto completo para o inglês.

A repercussão foi imediata.

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SciAm Brasil: nem sequer errado

04/04/2012

Sorteie aleatoriamente um amigo ou parente e as chances são que essa pessoa confia na eficácia de tratamentos homeopáticos ou, no mínimo, “conhece alguém que se deu muito bem” com um tal tratamento. A homeopatia, como se sabe, foi criada em 1796 pelo alemão Samuel Hahnemann. A linha-mestra do novo tratamento era o lema similia similibus curantur, latim para “semelhante cura semelhante”. É o mesmo princípio das simpatias populares, que já existiam no século XVIII, mas com uma roupagem mais sofisticada. A ideia de Hahnemann era que doenças eram desequilíbrios da energia vital do indivíduo. Para curar o paciente, o equilíbrio do corpo tinha que ser reestabelecido através da aplicação de soluções muito diluídas de substâncias que, pensava-se, causavam sintomas parecidos com a doença.

Levando em conta que a teoria Simpática e o modelo do Vitalismo são completamente ultrapassados (e, vale dizer, errados) é até surpreendente que a homeopatia tenha durado tanto tempo e siga tão popular. Eu suspeito que hoje em dia isso tenha a ver com o fato de que os homeopatas quase sempre recebam seus clientes com sorrisos, música de fundo suave e ambientes confortáveis. A maioria deles também dedica vários minutos à anamnese, além de demonstrar genuína disposição de ouvir o que o cliente tem a dizer. Compare isso com a maneira impessoal e apressada que encontramos em muitos consultórios de médicos que atendem em plano de saúde ou do SUS. Mas, divirjo: o ponto é que remédios homeopáticos são quimicamente indistinguíveis de água, tamanho é o grau de diluição da fórmula. Os benefícios do tratamento homeopático não parecem, por tudo quanto se sabe, diferentes do efeito placebo comum, conforme publicado em 2005 pela prestigiosa revista médica britânica Lancet.

Qual não foi minha surpresa, portanto, ao abrir a edição nº 119 (abril/2012) da Scientific American Brasil e encontrar à página 17 uma nota intitulada “A Eficiência Questionada da Homeopatia” que, a despeito do título, sugere que a aplicação desta técnica tem atingido resultados positivos na… agricultura.

Agricultura?

A autora da nota, uma certa Nina Ximenes, bióloga e pós-graduanda em educação ambiental, defende o uso de homeopatia no controle de pragas em substituição aos pesticidas usuais. A meta é nobre, sem dúvida, mas será que funciona? Bem, vejamos como a Sra Ximenes responde às críticas comuns à homeopatia (atenção para o trecho grifado):

Essa técnica é alvo de críticas quato (sic) aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contêm nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados.

Física quântica. Trabalha com energia. Se eu ganhasse um centavo cada vez que ouvisse essa…

Ainda que se dê à homeopatia o benefício da dúvida quanto à eficácia de seus tratamentos — o que já seria muito — resta à Sra. Ximenes, ou a quem quer que tenha originado a ideia exposta acima, provar tal afirmação. Qual é, exatamente, a ligação da homeopatia com a física quântica? Se “tem a ver com energia”, eu me pergunto se é possível calcular os autovalores da energia para o estado quântico do paciente. Aliás, como será que se calcula o estado quântico do paciente, dado que ele é um sistema macroscópico complexo? Qual é a função de onda das moléculas do princípio ativo dos remédios homeopáticos?

Cada uma das palavras e expressões que eu usei acima tem um significado dentro da física de verdade. Cada uma delas é usada para aplicações reais que produzem resultados observáveis e, mais importante, falseáveis. Uma máquina de ressonância magnética nuclear não produz imagens detalhadas do corpo humano simplesmente por que “tem a ver com física quântica e lida com energia”; ela o faz porque os spins nucleares das moléculas de água do paciente reagem à frequência de ressonância induzida pelo aparelho. Há equações que dizem como ele funciona e por que ele funciona e o resultado está aí para se ver. Se as equações estivessem erradas, se a teoria por trás não fosse sólida, se não correspondesse a fenômenos observáveis na Natureza, máquinas de ressonância magnética não funcionariam.

Dizer que a homeopatia “não se relaciona com a química”, aliás, é um insulto à inteligência do leitor, quer ele acredite na eficácia da homeopatia ou não. Primeiro, porque a química tem um papel preponderante na farmacocinética de qualquer remédio. O que, senão a química, vai nos dizer como uma substância será absorvida pelos tecidos do corpo? Como o corpo reagirá à presença desta substância? Em segundo lugar, a química obedece a princípios físicos que são, em última instância, quânticos — como aliás, tudo no Universo. Só que não saímos por aí tentando descrever tudo em termos de física quântica porque isso é um reducionismo idiota: equivalente a tentar descrever o comportamento quântico de um motor de automóvel. Até onde se pode enxergar, a química (e demais ciências complementares) é a ferramenta mais adequada para verificar a eficácia da homeopatia.

Já seria controverso o bastante que a Scientific American Brasil publicasse uma nota sobre homeopatia, dado o status pouco científico de sua fundamentação. Mas uma nota que afirma platitudes Nova-Eristas como a destacada acima? Eu esperava mais — muito mais — dos editores da revista.

Como diria Wolfgang Pauli, a nota da SciAm-Br não está nem sequer errada. E se este padrão de qualidade alarmante continuar, não hesitarei em cancelar minha assinatura.

Os maias, parte II

17/02/2012

Blogagem coletiva Fim do Mundo

É verdade que o assunto ainda está morno, em grande parte, suspeito, porque estamos em ritmo de Carnaval. Mais para o final do ano, talvez depois das eleições municipais, provavelmente vamos ouvir um monte sobre o apocalipse previsto pelos maias.

Aqui n’O Telhado já tratamos disso em 2009. Só para relembrar: o sistema de contagem de tempo dos maias é cíclico e o calendário deles dá uma grande virada mais ou menos a cada 5125 anos. Estamos bem perto de uma dessas viradas, o que vem deixando os esotéricos em estado de atenção máxima.

Mas o que significa em termos práticos? O mundo corre mesmo algum risco?

É claro que não.

Viradas de calendário, como a que aconteceu de 1999 para 2000 podem ser infrequentes, mas nem por isso possuem alguma relevância para além de mera curiosidade cultural. No caso dos maias é ainda mais estranho que essa celeuma toda esteja sendo criada. Os mitos de criação mesoamericanos colocam a criação deste mundo em 3114 AEC, que foi a última vez que o calendário maia zerou, então os místicos modernos concluíram que alguma coisa vai acontecer em dezembro de 2012 – alguma coisa de relevância espiritual global.

O que essa alguma coisa é depende do místico em questão, claro. Fala-se um bocado sobre catástrofes como terremotos e vulcões (como se não ocorressem o tempo todo), sobre um “alinhamento com um eixo galáctico”, que eu não sei bem o que é (e nem os próprios proponentes da ideia parecem saber), ou sobre um renascimento espiritual ao redor do mundo. Bem, só em 2011 já sobrevivemos a duas previsões sobre a volta de Cristo e o fim do mundo, umas duas ou três “aberturas de portais galácticos” (por conta de datas bonitinhas como 11/11/11), entre outras esquisitices. Acho que estamos bem preparados em matéria de sobreviver ao fim dos tempos, portanto vou deixar aqui a minha previsão: em 2013 o mundo vai continuar girando, as pessoas continuarão sendo boas ou más, tragédias e alegrias seguirão acontecendo e a vida seguirá em frente como tem feito desde a última virada do calendário.