Posts Tagged ‘Astronomia’

Inverno 2011

21/06/2011

Em 2009 escrevi isto aqui, comentando sobre as propriedades do Solstício e sobre como o Inverno é minha estação favorita. Não obstante o fato que a estação começa um pouco quente para o meu gosto…

Mas espere um minuto. Começar? Por que, exatamente, dizemos que o Inverno começa hoje às 14:16, hora de Brasília?

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Obrigado, tio Carl

09/11/2010

Se vivo estivesse, Carl Sagan completaria 76 anos hoje. Para mim ele foi mais que um divulgador de ciência – foi um poeta, um mestre, uma fonte de inspiração. É seguro dizer que sem ele e sem sua maravilhosa série de TV, “Cosmos”, eu não teria estudado Física e nem teria tentado seguir uma carreira nas ciências. Êxito profissional não obstante, minha maneira de pensar e de enxergar o mundo depende muito das lições que aprendi com ele.

Por tudo isso e por muito mais, obrigado, tio Carl!

Estações e cultura

08/11/2010

Discutir certas coisas como Horário de Verão e estações do ano com minha mulher é frustrante às vezes. Ela nasceu em Belém do Pará, bem perto da linha do Equador, e lá a variação nos horários de luz solar ao longo do ano é muito pequena. Não existem “estações do ano” bem definidas; de fato, os meses que nós aqui no Sudeste chamamos de verão são os de “inverno” para eles, porque chove mais e por mais tempo.

O ritmo cotidiano dela parece ser ditado pelas horas de luz solar: ela acorda com o sol nascendo e sente sono umas quatro ou cinco horas depois que ele se põe. Por isso mesmo ela está bastante confortável com o atual horário de verão a que estamos submetidos, pois diz que é uma forma do Homem “corrigir a natureza”. Ela fala isso metade troçando comigo, porque sabe que eu pego pilha fácil; e metade a sério. E o faz porque veio de uma cultura que associa fortemente luz solar a ciclos estáveis, sensação de calor com pouca chuva à ideia de “verão” e sensação de pouco calor com mais chuva à ideia de “inverno”.

Conforme eu já expliquei algumas vezes, as estações do ano são fenômenos puramente astronômicos: a Terra se movimenta ao redor do Sol e seu eixo de rotação inclinado faz com que atravesse quatro momentos muito específicos no ano, dois em que a luz do sol ilumina sua superfície bem “de frente” em toda parte (i.é., o sol passa pelo equador celeste) e dois em que a posição do sol no céu atinge pontos máximos na esfera celeste. Esses momentos marcam os pontos divisórios entre as estações do ano e por isso podem ser calculados com precisão de frações de segundo.

O microclima local em cada região, por sua vez, depende sim da intensidade da radiação solar (a qual por sua vez depende da estação do ano), mas depende bastante também das condições geográficas, hidrológicas e atmosféricas da vizinhança. Este ano, por exemplo, o fenômeno La Niña tem ocasionado a entrada de mais frentes frias do Sudeste até o Nordeste do país e com isso temos a sensação de uma Primavera bem mais amena que em anos recentes (eu estou adorando). De fato, nos últimos anos o clima parece tão esquisito que o calor leva mais um mês, um mês e meio a mais para ir embora e o frio se alonga até meados de outubro. Para minha mulher, isso significa que as estações do ano estão se atrasando — até as árvores sabem disso ao florescer mais tarde. Para mim e para a Astronomia, entretanto, estações do ano são coisas muito diferentes de calor e frio, que dependem muito mais desses fatores locais — e porque não dizer, da cultura em que nascemos.

Mas vá explicar isso para a atriz que adora me colocar pilha!

Primavera

22/09/2009

Hoje às 18h18 (hora de Brasília) começa a Primavera. Às vezes as pessoas me perguntam como é possível determinar o começo exato de uma estação. Afinal, se a Primavera é quando as árvores começam a florir, ou quando as cigarras começam a cantar, será que ela não começa em dias diferentes?

Não sei sobre flores e cigarras, a não ser que esses dependem mais de fatores climáticos. Mas a determinação do tempo das estações vem, é claro, da Astronomia!

Como se sabe, a Terra tem dois movimentos principais. O de rotação, de período de 24 horas, que é o responsável por termos dias e noites; e o de translação, no qual a Terra gira em torno do sol ao longo de um ano. A translação define o plano da órbita do nosso planeta, o qual recebe o nome de eclíptica.

Observando do solo, o céu parece uma esfera que cobre nossas cabeças. É possível estender esse plano da eclíptica até essa esfera imaginária e obter uma linha – a linha da eclíptica – que cruza o céu.

Sabe-se também que o eixo de rotação da Terra é inclinado em cerca de 23º26′ em relação ao plano da eclíptica. Podemos definir, então, uma outra linha imaginária chamada de equador celeste, que é simplesmente a projeção da nossa linha do Equador até a esfera celeste. Vejam na figura abaixo, cortesia da Wikipedia:

O equador celeste é a linha branca e a eclíptica é a linha vermelha

O equador celeste é a linha branca e a eclíptica é a linha vermelha

Ora, acontece que a linha da eclíptica também define o caminho pelo qual o sol aparenta se deslocar ao longo do ano entre dias consecutivos à mesma hora. Ou seja, se medirmos a posição do sol no céu ao longo de várias semanas sempre à mesma hora veremos que a posição dele varia, percorrendo a linha da eclíptica! Em metade do ano vemos o sol ficar gradativamente mais baixo no céu, enquanto na outra metade o sol fica gradativamente mais alto. Em dois momentos no ano a linha da eclíptica cruza a linha do equador celeste – exatamente no meio dos períodos de máxima e mínima altura do sol. Quando essa intersecção acontece temos um Equinócio, palavra latina que significa “noite igual”. Isso porque durante os Equinócios a duração do dia e da noite é mais ou menos a mesma para o mundo inteiro (embora o mais correto é dizer que a noite tem a mesma duração para latitudes +L e -L ao norte e ao sul, respectivamente. Mas isso é detalhe).

No Hemisfério Sul o Equinócio de Setembro define a entrada da Primavera. Às 18h18 de hoje o sol vai cruzar o equador celeste e depois vai ficar cada vez mais alto no céu até atingir o ápice em 21 de dezembro, quando então vai voltar a baixar.

Daqui a três meses eu volto a falar das estações e um pouco mais sobre coordenadas celestes. Até lá, então, e vamos curtir a floração dos ipês pela cidade!

Júpiter em oposição e Sky Maps

20/08/2009

Uma rapidinha: Júpiter atingiu o máximo da oposição desde 14 de agosto. Isso significa que ele está diretamente “atrás” da Terra em relação ao Sol, e por isso mesmo, um pouco mais brilhante que o usual. O astro tem estado alto no céu por volta das 20h na direção leste, sendo muito fácil de identificar: vai ser o objeto mais brilhante do céu, uma vez que estamos entrando na Lua Nova e que Vênus não está visível naquela. Encontra-se entre as constelações de Aquário e Capricórnio.

Quem tiver a oportunidade de observar Júpiter com uma luneta ou telescópio poderá também ver os quatro satélites galileanos – Io, Europa, Ganimedes e Calisto – aqueles que o italiano Galileu Galilei observou há exatos 400 anos e que o levaram a concluir que o modelo geocêntrico estava furado. É possível até ver algumas faixas de nuvens maiores com um telescópio pequeno!

Eu planejava aproveitar a noite de Lua Nova hoje e o fato que o Planetário da Gávea faz observações guiadas abertas ao público de terça a quinta para conferir Júpiter e o que mais eles estivessem obervando, mas o tempo fechou por aqui. Mas talvez volte a abrir até semana que vem, quando ainda vai dar para observar muita coisa boa.

Outra dica fica por conta do excelente guia de observação do céu online que é o Sky Maps. Todo mês o site publica uma carta celeste em .pdf (em várias línguas diferentes) com as efemérides e objetos mais interessantes da época. Eles estão no Twitter também, vale a pena conferir!

Inverno

21/06/2009

O inverno é minha estação predileta. A temperatura é bem amena e civilizada o bastante para a gente não precisar de ventiladores ou ar-condicionado e nem as roupas ficam desconfortáveis.

Neste ano o inverno do hemisfério sul começou hoje, 21 de junho, às 2:45 da madrugada. Já pensaram como esse momento tão exato é definido? Bem, astronomicamente, é claro! Vamos recordar do princípio: na escola aprendemos que a Terra gira em torno do sol numa trajetória quase circular. Esse movimento de translação define um plano no espaço chamado de eclíptica. Daqui da superfície a eclíptica é uma linha imaginária no céu por onde o sol transita ao longo do ano. Ocorre que o eixo de rotação da Terra (o responsável por termos dias e noites) não está perpendicular com relação à eclíptica, mas tem uma inclinação aproximada de 23°26′. Essa inclinação implica que a altura máxima do sol no céu varia ao longo do ano. Por exemplo: ao meio-dia do solstício de verão no Trópico de Capricórnio o sol vai estar “a pino”; objetos terão uma sombra mínima. Mas no solstício de inverno no mesmo local o sol não vai estar no ponto mais alto do céu, e sim inclinado um bocado mais ao norte. Aqui no Rio de Janeiro estamos quase em cima do Trópico de Capricórnio, então o sol atingiu sua declinação máxima às 2:45, e seu valor foi justamente quase 23°26′.

A palavra “solstício” (do latim “sol parado”) vem deste fenômeno. O sol aumenta sua inclinação com respeito ao equador celeste até atingir um máximo para então se deter e lentamente decrescer esse valor nos dias e semanas seguintes. O cálculo da hora exata dos solstícios não é trivial, embora desde os tempos antigos se saiba como estimá-la com razoável precisão. Os equinócios são muito mais fáceis de calcular, mas deles eu falarei daqui a três meses.

E por que faz mais frio no inverno? Porque a luz do sol batendo de raspão transmite menos calor. Claro que o clima e a temperatura também dependem muito de fatores geográficos e atmosféricos, mas quanto maior a latitude, menor a intensidade do calor do sol.

Vamos curtir o frio e aproveitar as noites mais longas – para dormir ou namorar!

Marte do tamanho da Lua? NÃO!

15/06/2009

Eu adoro o mês de junho. É bem mais frio por aqui, é aniversário dos meus pais, ainda dá para curtir uma ou outra festinha junina… mas também é época de uma das mais insanas mensagens de internet que já vi. Pois é por volta de junho que TODOS os anos começa a circular um spam afirmando que em agosto Marte estará “mais próximo que jamais esteve” da Terra, e que será visto “com o mesmo tamanho que a Lua no céu”.

Desnecessário dizer que isso é impossível. E desnecessário dizer que sempre tem um pobre desavisado que cai na esparrela. Mas quando sai no Informe JB de domingo (caderno A, página 4 da edição de 15 de junho de 2009) eu me incomodo e muito. É dever dos jornalistas apurarem uma informação antes de publicá-la; especialmente se se trata de assunto que não dominam. Podem escrever para o sr. Leandro Mazzini (informejb@jb.com.br) e reclamar.

Mas como começou esse spam? Bem, em 2003 Marte esteve realmente próximo da Terra, o mais próximo que esteve em quase 60 mil anos. Só que este “mais próximo” era da ordem de 56 milhões de km – o que, segundo Phil Plait, é apenas uma fração mais próximo do que o perigeu costumeiro do planeta vermelho. A essa distância, ainda de acordo com Plait, Marte apareceria com um diâmetro aparente de 26 segundos de arco no céu, ou cerca de 1/72 do tamanho da Lua. Um ponto, ligeiramente mais brilhante que o normal. (Exercício para os leitores: sabendo que Marte tem aproximadamente o dobro do diâmetro real da Lua, calculem a que distância o planeta teria que estar para ser visto com o mesmo tamanho aparente que o satélite. Se acertarem, vocês verão porque isso é um absurdo).

Ocorre que um pequeno circo midiático foi montado em cima dessa aproximação. Divulgação descuidada se juntou com desinformação e um bocado de má-fé por parte de algum engraçadinho. E desde 2003 todos os anos o mesmo spam começa a circular sugerindo que uma segunda lua vai aparecer no céu em agosto…

EDIT: Graças aos colegas do Clube d’Astronomia: clique aqui para a versão eletrônica do Informe JB deste domingo com a barriga marciana!

Enxergando longe!

10/06/2009

Essa é tão incrível que eu custo a acreditar: astrônomos do Instituto Nacional de Física Nuclear (na Itália) criaram uma técnica de observação de planetas extragaláticos. A coisa envolve o fenômeno do microlenteamento gravitacional – no qual o campo gravitacional de uma estrela focaliza a luz de objetos muito distantes.

E parece que o esforço deu certo. A mesma equipe anunciou o que parece ser um planeta com seis vezes a massa de Júpiter na galáxia de Andrômeda. Andrômeda! Dois milhões de anos-luz de distância!

Confiram o paper no arxiv.org e vejam o trabalho deles. Absolutamente fantástico!

O Universo para você descobrir

18/05/2009

Quatrocentos anos atrás Galileu Galilei apontou uma luneta para o céu e revelou um novo mundo. As observações dele marcaram o começo de uma era de investigação e profundas descobertas sobre a Natureza numa escala sem precedentes. Tal foi a multiplicação de conhecimento científico nas últimas décadas, por exemplo, que a maioria de nós sequer se dá conta de como a ciência faz parte de nossas vidas. Isso quando não somos conduzidos a pensar que a ciência é alguma atividade hermética que apenas os muito inteligentes são capazes de realizar; ou que cientistas são pessoas esquisitas que não têm vida social.

O Ano Internacional da Astronomia vem para alterar essas percepções. Criado pela União Internacional da Astronomia (IAU, em inglês) e com o apoio da UNESCO, a comemoração reúne 140 nações numa aventura de mostrar o Universo para todos – mas principalmente para as crianças e jovens.

Não posso enfatizar isso o bastante: educação fundamental em ciência é importante demais para ser deixada de lado. Então, se você tem filhos, sobrinhos, primos; se tem curiosidade e vontade de aprender, não deixe de visitar o Planetário da Gávea, o Museu da Astronomia e Ciências Afins (esses se você for do Rio de Janeiro, claro), acompanhar a Olimpíada Brasileira de Astronomia e participar de algum clube amador de observações. Vale até participar de comunidades e fóruns de internet! Eu conheço um muito bom, o Clube d’Astronomia. Aprender é divertido e conheço poucas coisas que despertem tanto a imaginação e a curiosidade quanto observar os céus.

Confiram abaixo o clipe do Ano Internacional e bons céus para vocês!