Archive for the ‘Humor’ Category

Zenão e o tubo de pasta de dente

20/06/2011

Você se levanta de manhã cedo, vai ao banheiro e lava o rosto. Ainda meio adormecido, pega aquele tubo de pasta de dente já no final e o espreme com um pouco mais de força do que usou no dia anterior. Dá certo; ainda tem um pouquinho de pasta de dente para você escovar e começar o dia.

Talvez você acorde muito sonolento, talvez tenha preguiça de abrir um tubo de pasta de dente novo, ou talvez tenha simplesmente esquecido de incluir esse item nas últimas compras. O fato é que na manhã seguinte o tubo quase vazio continua lá e você consegue espremer um pouco mais dele apertando um pouquinho mais forte. É de se perguntar: quanto exatamente ainda se pode tirar de um tubo de pasta de dente quase vazio?

Essa dúvida corriqueira não é muito diferente das situações propostas por Zenão de Eleia para confundir seus colegas filósofos. Um pré-Socrático tardio, Zenão buscou apoiar as noções de seu mestre Parmênides de que movimento, tempo e, de fato, a própria ideia de pluralidade eram ilusões dos sentidos. Ele raciocinava da seguinte forma: “como é possível terminar uma tarefa que tenha infinitos passos em uma quantidade finita de tempo?” — e buscava ilustrar esse raciocínio através do que ele chamou de paradoxos, palavra grega que significa algo como “contrário à razão”. Por exemplo, dizia Zenão, suponha que o herói Aquiles aposte uma corrida com uma tartaruga. Para dar ao bicho uma certa vantagem, Aquiles deixa a tartaruga partir de um ponto na metade da distância a ser percorrida. Ora, mas quando Aquiles tiver percorrido metade daquela distância inicial, a tartaruga terá andado um pouco mais. E quando Aquiles tiver percorrido metade daquela distância que agora o separa da tartaruga, o quelônio terá andado um bocadinho a mais — e assim por diante. A conclusão do filósofo é que, como há um número infinito de pontos que separam Aquiles da tartaruga, o herói jamais poderia alcançar o animal num tempo finito. Logo, diz o filósofo, o movimento é uma ilusão.

Um paradoxo ainda mais sutil é o da flecha. Suponha que um arqueiro dispare uma flecha visando um alvo cem passos adiante. Agora imagine o voo da flecha num dado instante qualquer antes dela atingir o alvo. Se pensarmos em cada instante como uma “fotografia” da flecha, podemos imaginá-la parada no ar. Zenão sustenta que naquele instante em particular, a flecha ocupa apenas o espaço que ela ocupa e não está se movendo para parte alguma. Mais ainda, a flecha não pode sair de onde está para outro lugar, porque não há tempo passando para que a flecha se mova. Ou seja, conclui Zenão, se em qualquer dado instante que imaginarmos a flecha está estacionária, então não apenas o movimento é uma ilusão, como o próprio tempo é uma ilusão.

Os paradoxos de Zenão divertiram e confundiram pensadores nos séculos e milênios seguintes. Hoje em dia, armado com Cálculo Diferencial, um cientista moderno poderia considerar os paradoxos de Zenão trivialmente simples de resolver, mas há quem diga que não é assim tão fácil: não é uma simples questão de soma, ou, para usar o jargão matemático, de convergência de soma de séries infinitas. Zenão jamais menciona somas em seus argumentos, mas sim um número aparentemente infinito de passos não-instantâneos para completar uma tarefa.

Entretanto, a flecha atinge o alvo, Aquiles ultrapassa a tartaruga e o seu tubo de pasta de dentes finalmente esvazia. Será que isso implica que tempo e espaço são entidades discretas, em vez de contínuas? Ou será que os matemáticos têm razão e Zenão só precisava aprender a somar séries infinitas?

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Papo de maluco

18/04/2011

Os diálogos a seguir aconteceram quase do mesmo jeito que está escrito:

Eu: “A Relatividade mostra como a o tempo pode ser encarado como uma quarta dimensão parecida com as três dimensões espaciais.”

Cético: “Não acredito nisso. Como se pode provar tal coisa?”

Eu: “Bem, todos os laboratórios do mundo observam efeitos de dilatação temporal todos os dias. Além disso existem muitos outros efeitos astronômicos e cotidianos que só podem ser explicados se a Relatividade estiver certa e…”

Cético: “Bobagem, não acredito em nada disso. Pra mim o tempo é absoluto.”

Eu: “…”

Tempos depois:

Eu: “Não acredito em coisas como Astrologia ou Homeopatia. Você pode me mostrar como tais coisas poderiam funcionar?”

‘Cético’: “VOCÊ é que não quer ver! Você tem a mente fechada e não percebe o mundo mais sutil ao seu redor!”

Eu: “Tá bom, então…”

Moral da história
Mantenha a mente aberta, mas não tanto a ponto de deixar seu cérebro escorrer pra fora.

Quatro Nobres Verdades

06/12/2010

0 – Você é obrigado a jogar.

1 – Você não pode ganhar.

2 – Você não pode empatar.

3 – Você não pode sequer sair do jogo.

Não, não se trata de alguma filosofia pessimista. As quatro leis acima são versões bem-humoradas e profissionalmente auto-depreciativas das famosas Leis da Termodinâmica. Mas por que elas pintam um panorama tão depressivo de nossa condição?
(more…)

Estações e cultura

08/11/2010

Discutir certas coisas como Horário de Verão e estações do ano com minha mulher é frustrante às vezes. Ela nasceu em Belém do Pará, bem perto da linha do Equador, e lá a variação nos horários de luz solar ao longo do ano é muito pequena. Não existem “estações do ano” bem definidas; de fato, os meses que nós aqui no Sudeste chamamos de verão são os de “inverno” para eles, porque chove mais e por mais tempo.

O ritmo cotidiano dela parece ser ditado pelas horas de luz solar: ela acorda com o sol nascendo e sente sono umas quatro ou cinco horas depois que ele se põe. Por isso mesmo ela está bastante confortável com o atual horário de verão a que estamos submetidos, pois diz que é uma forma do Homem “corrigir a natureza”. Ela fala isso metade troçando comigo, porque sabe que eu pego pilha fácil; e metade a sério. E o faz porque veio de uma cultura que associa fortemente luz solar a ciclos estáveis, sensação de calor com pouca chuva à ideia de “verão” e sensação de pouco calor com mais chuva à ideia de “inverno”.

Conforme eu já expliquei algumas vezes, as estações do ano são fenômenos puramente astronômicos: a Terra se movimenta ao redor do Sol e seu eixo de rotação inclinado faz com que atravesse quatro momentos muito específicos no ano, dois em que a luz do sol ilumina sua superfície bem “de frente” em toda parte (i.é., o sol passa pelo equador celeste) e dois em que a posição do sol no céu atinge pontos máximos na esfera celeste. Esses momentos marcam os pontos divisórios entre as estações do ano e por isso podem ser calculados com precisão de frações de segundo.

O microclima local em cada região, por sua vez, depende sim da intensidade da radiação solar (a qual por sua vez depende da estação do ano), mas depende bastante também das condições geográficas, hidrológicas e atmosféricas da vizinhança. Este ano, por exemplo, o fenômeno La Niña tem ocasionado a entrada de mais frentes frias do Sudeste até o Nordeste do país e com isso temos a sensação de uma Primavera bem mais amena que em anos recentes (eu estou adorando). De fato, nos últimos anos o clima parece tão esquisito que o calor leva mais um mês, um mês e meio a mais para ir embora e o frio se alonga até meados de outubro. Para minha mulher, isso significa que as estações do ano estão se atrasando — até as árvores sabem disso ao florescer mais tarde. Para mim e para a Astronomia, entretanto, estações do ano são coisas muito diferentes de calor e frio, que dependem muito mais desses fatores locais — e porque não dizer, da cultura em que nascemos.

Mas vá explicar isso para a atriz que adora me colocar pilha!

Um trabalho em progresso

06/09/2009

Acabo de passar algumas horas muito agradáveis conversando com uma grande amiga. Cética e ateia, ela se revolta tanto quanto eu a respeito de um monte de absurdos e desatinos; alguns dos quais andamos comentando em nossos respectivos blogs. Na despedida, poderamos sobre que atitudes devem ser tomadas frente a tais desatinos: se preservamos nossa própria sanidade mental e enterramos a cabeça na areia (correndo o risco de ver a situação piorar); se nos engajamos em lutas e discussões no mais das vezes infrutíferas para pelo menos mostrar que existem outras opiniões e outros modos de pensar; e como e quando e em quanto decidir entre um extremo e outro. Não chegamos a uma resposta. Quero dizer, eu procuro me pautar pelo seguinte:

As pessoas são estúpidas.

Vou dizer de novo. As pessoas. São. Estúpidas. E digo isso sem qualquer preconceito e me incluindo nesse rol, pois somos todos os estúpidos de alguém. Isso posto, há certas formas de estupidez completamente toleráveis. Há o estúpido que não parou para pensar com calma. Há o estúpido que já pensou até demais e acha que chegou na verdade última. Há o estúpido que simplesmente não teve oportunidade, ou paciência, ou desejo de deixar de sê-lo. Há os estúpidos que mal desconfiam que sejam estúpidos (desconfio que sejam a maioria). Mas se há algum consolo nisso, é que em sua grande maioria as pessoas, estúpidas ou não, são boas. Têm elas uma medida razoável de boa vontade e não desejam ativamente machucar os outros. Se o fazem no mais das vezes é por achar que é “o melhor”. E é aqui que os problemas começam — se se tem a mais absoluta certeza que um dado curso de ação é para “o melhor”; se se aceita tal coisa acriticamente e sem medir as conseqüências ou pesar bem o que se está fazendo, ou pior, se se tem a mais pétrea certeza de que a razão está lá ou cá e não se admite a possibilidade de estar errado; então claramente se deixou o caminho da estupidez sem malícia. É contra esta estupidez que devemos lutar, e a qual devemos nos policiar.

Me tornar menos estúpido é uma luta constante, um trabalho em progresso. Ajuda muito o fato de eu conviver com outras pessoas na mesma luta. Pouco importa se são céticas, religiosas, acadêmicos, humildes ou o quê: é em dias como hoje que eu vejo como esse convívio é parte fundamental desse processo.

XKCD Tech Support

24/08/2009

I love Geek humor!

Boas razões

27/07/2009

“Então está certo, eu posso fazer a alteração de meu endereço residencial para correspondência aqui mesmo, certo? Não preciso ir até minha agência de origem?”

“Não precisa. Traga seu comprovante de residência para cá que nós mesmos enviamos e no mesmo dia já vai ser alterado, dependendo da hora.”

“Ótimo. A propósito: e seu quiser mudar minha agência para cá? Iria facilitar muito as coisas.”

“Ah, mas o senhor precisaria preencher um formulário e dar uma boa razão…”

“Hmmm. Eu pensaria que ‘porque eu QUERO’ é toda a razão necessária…”

“Haha, não, senhor. Tem que ser uma boa razão.”

“Eu trabalho aqui do lado.”

“Então, essa é uma boa razão.”

“Tá. Obrigado.”

Dedicado a todos aqueles que ainda têm a ilusão de que governam suas próprias vidas.

Atendimento por Telefone

26/07/2009

“Boa noite, com quem eu falo?”

“Olá, meu nome é Daniel. Tentei pagar uma conta no restaurante sexta à noite e meu cartão de débito foi recusado. Hoje descobri que a senha está bloqueada e gostaria de saber por quê.”

“Pois não, senhor. Aguarde um momento… sim, aqui está. O nosso sistema identificou que a fita magnética do seu cartão estava um pouco gasta, então ele automaticamente bloqueou a sua senha. Isso é feito para impedir tentativas de clonagem e para evitar que o material magnético fique preso nas máquinas de débito, o que também poderia comprometer a sua segurança. Mas não se preocupe, outro cartão lhe será enviado.”

“Hm, deixe eu ver se entendi: o sistema bloqueou minha senha sem eu ter errado três vezes e vai me mandar outro cartão sem que eu solicitasse?”

“Isso! Mas é para a sua segurança”

“(suspiro) Bem, vá lá. Em quanto tempo isso chega?”

“Cinco dias úteis, a contar de segunda-feira agora.”

“Sexta já terei meu novo cartão?”

“Ou na outra segunda, na parte da tarde.”

“Na OUTRA segunda, sei… hmm, por falar nisso, para qual endereço ele será enviado?”

“Para o seu endereço residencial, senhor.” [dá meu endereço antigo]

“Olhe, eu mudei faz tempo e desde então venho tentando alterar o endereço pela internet. Não sei a causa, mas o sistema não me deixa alterar o CEP e logradouro.”

“… bem…”

“Mas não deve dar problema, pois sabendo disso, pedi para entregarem toda minha correspondência bancária no meu trabalho. As faturas e extratos mensais chegam direito. O novo cartão será enviado para lá, não é?”

“…”

“E então?”

“Eu… não sei, senhor. Mas é quase certo!”

“(suspiro) OK, podemos então aproveitar que estamos aqui e alterar o meu endereço residencial?”

“Podemos, sim. Mas vou pedir ao senhor que retorne ao sistema de teleatendimento e entre com os números de sua agência, conta e SENHA DO CARTÃO.”

“Mas se o meu problema é justamente senha bloqueada!”

“Uhh…”

“Olhe, deixe para lá. Eu posso resolver o endereço na segunda-feira numa agência, certo?”

“Ah, sim, claro!”

“Precisa ser a minha agência ou qualquer uma serve?” [A minha agência é muito longe do meu trabalho. E de outra vez me informaram que alteração de endereço residencial tinha que ser na agência de origem.]

“Qualquer uma!”

“OK, obrigado e boa noite…”

“O Banco agradece e lhe deseja uma boa noite!”

[Click]

Odeio teleatendimento.

Pensando em nada (ou “no Nada”?)

21/07/2009

In eighteen-century Newtonian mechanics, the three-body problem was insoluble. With the birth of general relativity around 1910 and quantum electrodynamics in 1930, the two- and one-body problems became insoluble. And within modern quantum field theory, the problem of zero bodies (vacuum) is insoluble.”  

— GE Brown, quoted by RD Mattuck, via Wikipedia

Sempre o moto contínuo

23/06/2009

Só há três coisas certas nessa vida: a morte, os impostos e gente inventando máquinas de moto contínuo. Desde que o mundo é mundo há tentativas nesse sentido. A primeira que se tem notícia é do Báscara – aquele da equação de 2º grau – que imaginou uma roda capaz de girar eternamente… que não funcionou. Gente do calibre de Leonardo daVinci e Jean Bernoulli também propuseram mecanismos diferentes sem sucesso.

Em 2006 uma pequena empresa irlandesa chamada Steorn publicou um anúncio bombástico na revista Economist, no qual declarava ter inventado uma máquina de moto contínuo. Depois disse ainda que “oito engenheiros e cientistas com vários PhDs de universidades de prestígio” tinham verificado o funcionamento do aparelho – sem citar nomes, é claro. Já estão sentindo o cheiro de fraude? Pois é.

Depois de dois anos de vai e vem e demonstrações públicas adiadas, o painel de doze jurados independentes (escolhidos pela Steorn) para avaliar a tal máquina declarou hoje que ela não funcionava como anunciado. Que surpresa…

O divertido é ler na página da Steorn a “explicação” de como a máquina (batizada de Orbo) funciona. Em vez de uma explicação, nos é oferecida uma confusa prestidigitação retórica com uma pitada de jargão científico para tapear os não-iniciados.

Mas afinal, por que é impossível construir uma máquina de moto contínuo? Bom, por causa de uma chatice chamada Lei da Conservação da Energia. Em termos leigos, não existe almoço grátis: toda energia útil de um motor tem que vir de alguma fonte, seja ela interna ou externa. E em sistemas fechados a quantidade total de energia sempre é conservada.

Em termos não tão leigos, todas as leis de conservação são conseqüência do Teorema de Nöether, que diz que toda simetria de uma lei física qualquer implica numa quantidade conservada. A conservação de energia vem do fato que as leis físicas são simétricas no tempo – o que significa, entre outras coisas, que até onde podemos verificar, elas sempre tiveram a mesma cara. E mesmo quando encontramos um potencial dependente do tempo, como uma sistema com atrito, por exemplo, a energia que “desaparece” pode ser contabilizada adotando um sistema fechado apropriado.

Ainda assim, algumas pessoas insistem. Não poderia haver uma lei ainda por descobrir, “porque afinal ainda não sabemos TUDO” (Deus, como odeio esse argumento…), que nos possibilitaria contornar essas dificuldades? Honestamente, não. Não que seja absolutamente impossível que se descubra alguma coisa que jogue as leis de conservação por terra, mas é altamente improvável. Todas elas são muito bem amarradinhas e dependem não apenas de resultados empíricos, mas de princípios físicos e matemáticos muito bem fundamentados. Mudar a maneira como elas funcionam seria ordens de grandeza mais dramático do que a mudança de paradigma causada pela Teoria da Relatividade e pela Mecânica Quântica.

Mas isso não impede sonhadores ingênuos e o ocasional patife de tentarem.