Archive for the ‘Ficção Científica’ Category

Holocast

23/02/2010

Holocast episódio 01Embarquei numa aventura um pouco diferente das que usualmente ocorrem em mesas de jogo de RPG. Desde 5 de fevereiro está no ar o Holocast, onde eu e meu irmão batemos um papo descontraído sobre o universo de Star Wars, com foco no RPG. No primeiro episódio, por exemplo, conversamos sobre as várias conversões de Star Wars para RPG ao longo dos anos. No segundo damos dicas mais específicas de como manter uma tensão cinematográfica nas cenas dos jogos.

O Holocast surgiu da sugestão de Marcelo Dior, que é o criador do excelente site de RPG A Terceira Terra. Dior pretende abrigar podcasts sobre os mais variados temas relacionados a jogos e convidou o meu irmão (que convidou a mim) a fazer um sobre SW.

Ainda estamos aprendendo o caminho das pedras e a estrutura técnica não é lá essas coisas. É o Skype, mais um programa para gravar as conversas em mp3 (que não está gravando em alta qualidade não sei por quê) e muito entusiasmo. O universo de SW é vasto, afinal, e tema para discutir é o que não falta!

Confiram lá!

A Física dos Discos Voadores

23/05/2009

Está marcada para hoje no Rio a apresentação do americano Peter Coffin com seu disco voador de alumínio e lanternas coloridas. Pela foto aí de cima pode-se imaginar que o efeito ao vivo deve ser impressionante. O disco voador de Coffin é sustentado por cabos a um helicóptero, o que dá a sensação quase real de um objeto que se move sem um método aparente de propulsão. Mas afinal, como poderia ser a propulsão de um disco voador “de verdade”?

Alguns entusiastas da Ufologia propõem que os alienígenas usam alguma espécie de motor capaz de alterar a direção e a velocidade de suas naves sem expelir gases propelentes, como um foguete faz. Isso eliminaria uma das mais sérias dificuldades das viagens espaciais, que é o quociente massa útil/ massa do propelente – é preciso um bocado de combustível para levantar uma massa pequena até a órbita da Terra e além. Funciona assim: o foguete expele uma determinada massa m de propelente para longe de si. Pela 3a Lei de Newton, da Ação e Reação, a massa expelida de propelente (que por esse motivo também é chamada de massa de reação) empurra o foguete na direção oposta. O propulsor de um disco voador, dizem, seria “sem reação”, já que não expeliria coisa alguma.

Há dois problemas com essa idéia. Primeiro, ela viola um dos princípios mais sólidos da Física, o da conservação do momento linear, ou quantidade de movimento (vide post anterior). Na ausência de forças externas um corpo vai manter o seu estado de movimento. Para alterar a velocidade ou a direção de sua trajetória seria preciso expelir do corpo alguma coisa que carregaria parte do momento linear, de modo que a soma vetorial dos momentos lineares depois da reação seja igual àquela antes. Dito de maneira mais formal, num sistema fechado o momento linear é constante.

O segundo problema tem a ver com o balanço de energia. Não seria possível supor que algum princípio físico ainda por descobrir torna o propulsor sem reação possível, desde que se gaste uma certa quantidade de energia equivalente à variação de energia cinética? A resposta é não. Isso porque não há como medir de forma absoluta a energia cinética de um corpo – sempre a medimos a partir de um determinado referencial, uma espécie de ponto de vista. Por exemplo: suponha que temos um astronauta pousado num asteróide. Por cima dele passam um foguete e um disco voador, ambos com velocidade v em relação ao asteróide. Nosso astronauta calcula a energia cinética do disco voador e chega ao valor E. Mas o piloto do foguete vê o disco voador parado ao seu lado – no referencial do piloto é o asteróide que anda para trás com velocidade v. Computando a energia cinética do disco voador, o piloto rapidamente conclui que ela é zero, por ele estar parado. Suponha agora que o disco aciona seu incrível propulsor sem reação e depois de um pico de aceleração alcança a velocidade 3v em relação ao asteróide. O astronauta agora calcula a variação de energia cinética antes e depois da aceleração e, sabendo que esta varia com o quadrado da velocidade, conclui que tal variação foi de 8E. O piloto do foguete faz os mesmos cálculos, mas para ele a velocidade do disco variou de zero para 2v. Assim, no referencial do piloto a energia cinética do disco variou em 4E.

Quem tem razão? Para onde foi a diferença de energia?

Não tem jeito. Alguma coisa tem que carregar momento linear e energia para um lado de modo ao disco voador se mover para outro. E não dá nem para supor um referencial único para todo mundo fazer as contas; aquele estraga-prazeres do Einstein demonstrou que não existe isso de referencial privilegiado no Universo.

Conclusão: propulsores sem reação são fisicamente implausíveis.

Claro que isso não impede os escritores de ficção científica (e os ufólogos…) de propor outros métodos exóticos de propulsão. Alguns são mais críveis do que outros. Eu não sei, por exemplo, se algum dia vamos descobrir algum acoplamento magneto-gravítico que nos permita levitar; ou se é possível distorcer o espaço-tempo ao redor de uma nave para que ela efetivamente “caia para frente”. Mas um legítimo propulsor sem reação é tão inverossímil quanto uma máquina de moto contínuo.

O que certamente não nos impede de apreciar uma tapeação engenhosa – e honesta – de Mr. Coffin.

Não mudou o bastante

09/05/2009

Versão curta

Começa bem e cai no final. Não por ter se distanciado de Jornada nas Estrelas, mas por não ter se distanciado o bastante.

Versão longa.

Quando soube que um remake da série clássica de Jornada nas Estrelas estava sendo feito, tive três certezas:

1 – Os fãs continuariam a chorar e ranger os dentes antecipando uma desgraça;
2 – A continuidade com o material anterior não seria respeitada;
3 – Haveria alguma espécie de viagem no tempo na trama.

Acertei nas três. Não que me importasse com alguma delas, pois não tinha intenção de ver o novo filme. As últimas tentativas no cinema e a maneira pífia como a última série de TV foi encerrada destruíram qualquer paixão que eu ainda nutria pela franquia.

Este novo filme, entretanto, prometia re-imaginar a série clássica e não se prender ao cânone anterior. Verdade seja dita, Jornada nunca primou pela coerência interna ou por respeito ao próprio cânone. Mas esse não é o ponto – J. J. Abrams realmente se propôs a desafiar tudo aquilo que sabíamos a respeito dos personagens e do universo.

E isso não foi ruim.

Ao contrário, o diretor não foi nada senão honesto e, tendo jogado o cânone pela janela, conseguiu juntar pedaços dele o suficiente para tornar a trama e os personagens reconhecíveis para os fãs. Os atores, aliás, estão quase todos muito bons – a caracterização de Karl Urban como Dr McCoy chega a assustar de tão perfeita e Zachary Quinto consegue impor um estilo próprio ao seu Spock e ao mesmo tempo permanecer fiel ao que conhecemos do cientista vulcano. A agradável surpresa fica por conta da moça que faz Uhura, que injeta uma nova vida a uma personagem que, apesar de conhecermos há quase 50 anos, quase nada sabíamos a respeito. Gostei particularmente da interpretação de Bruce Greenwood como Christopher Pike.

O filme começa muito bem, mostrando detalhes da juventude de Kirk e Spock e de como os personagens se conhecem. Há um nível de caracterização ali que eu confesso não ter esperado encontrar. A trama vai tomando um rumo interessante, até que um alerta soa na Academia da Frota e, por falta de pessoal, os cadetes são postos a bordo de todas as naves disponíveis para partir numa desesperada missão de resgate em Vulcano.

E aqui termina a parte do filme que eu gostei.

Do momento em que o alerta vermelho soa até o final do filme, J. J. Abrams começa a se levar a sério e o filme repete todos os clichês ruins da Space Opera, as mesmas tentativas de piadinhas, as mesmas gags de filmes de ação, o mesmo technobabble… e parece ficar o tempo todo se dando tapinhas nas costas pela esperteza. Opta pelo som e fúria e esquece o bom caminho que estava tomando. Oferece mais do mesmo e do manjadíssimo. Um porre de chato.

Em suma, torna-se o que Jornada nas Estrelas teve de pior desde 1993.

Não se trata de ser um fã rabugento aqui, mas de reconhecer que tiroteio, música alta e efeitos especiais não podem substituir caracterização e roteiro. Não precisava ser um lance todo sério e realista como o novo Battlestar Galactica. Bastava ser boa Space Opera, e podia ter conseguido.

Talvez uma nova franquia se inicie e talvez alguns desses erros sejam corrigidos. Duvido muito que eu esteja a bordo para conferir. Jornada nas Estrelas e eu mudamos muito desde que nos conhecemos e tentar reatar a relação agora depois de tantos problemas só traria mais dor de cabeça. Melhor reconhecer que não há mesmo chance de reatar o casamento e seguir com vida.

Além do mais, Battlestar Galactica acaba de me apresentar uma prima gostosinha e acho que pode rolar alguma coisa… :-)

Star Trek: expectativas conflitantes

09/05/2009

Então o novo filme de Jornada nas Estrelas estreou ontem, cercado tanto pelo hype da mídia quanto pelos resmungos de parte dos fãs mais antigos. Não vi o filme e, confesso a vocês, até um mês atrás não tinha qualquer intenção de ver; ao menos não no cinema. Não porque eu estava achando que ia ser ruim (de fato eu achava, mas esse não era o ponto), mas simplesmente porque já não me importava mais com a franquia há tempos. Sucessivos tiros no pé da equipe criativa me afastaram. A luz no fim do túnel que foi a excelente quarta temporada de Enterprise provou-se ser um caso de “muito pouco, muito tarde”, como dizem os americanos.

Eu ligava tão pouco para o filme de agora que costumava dizer a certos fãs mais raivosos que simplesmente deixassem para lá. O Jornada que eles gostavam estava obviamente morto, e voltar ao cinema para ver a nova cepa os deixaria ainda mais raivosos. Que seria um exercício de frustração. Por algum motivo, isso os deixou ainda mais raivosos. Não pude deixar de comparar a situação com um casamento falido que as partes tentam manter a todo custo quando o melhor seriam o divórcio e a distância…

Enfim, as coisas estavam nesse pé quando vi que ninguém menos que Leonard Nimoy estava – entusiasticamente – participando de e promovendo o filme. E como se isso não bastasse, depois das várias pré-estréias pelo mundo, platéia e críticos pareciam bastante satisfeitos com o resultado final. De fato, até o site The Onion satirizava o fato das críticas mais ácidas virem dos fãs.

Alguns amigos foram ver o filme ontem. Fãs clássicos. Pelos menos um foi com boa vontade.

Todos odiaram.

E agora pela manhã eu vejo que duas outras pessoas cuja opinião sobre assuntos nerds eu respeito – Phil Plait e Peter David – amaram o filme.

Só me resta ver com os próprios olhos e contar aqui depois. Aguardem!

Semana FC 2: Caprica

05/05/2009
Caprica

Caprica

Caprica se passa 58 anos antes do início de Battlestar Galactica, no zênite do desenvolvimento tecnológico das Doze Colônias de Kobol. No aspecto social, as coisas poderiam ser melhores – as Colônias são desunidas e há movimentos terroristas de cunho religioso. E é em meio a atentados e tragédias pessoais que vemos a criação do primeiro andróide Cylon, a qual só foi possível por meio de um pacto quase faustiano… em mais de um sentido.

Os temas desse episódio-piloto têm muito a ver com o Frankenstein de Mary Shelley. Mas o Dr Graystone não é movido apenas por vaidade intelectual ou pela tragédia – há uma discussão filosófica (muito antiga, por sinal) a respeito de inteligências artificiais e sobre se é possível ao Homem criar vida.

A maior parte das pessoas hoje em dia ainda pensa em termos Dualistas, ou seja, que a Mente é alguma característica intrinsecamente não-física do corpo – a alma, por assim dizer. Uma máquina consciente seria, então, impossível ou na melhor das hipóteses, um simulacro. E aqui entra uma das sacadas mais interessantes de Caprica, que poderia ter saído direto de Alan Turing: “uma diferença que não faz diferença não tem diferença”. Exceto que, é claro, na série vai fazer toda a diferença do mundo.

Eu não espero que Caprica se entregue muito à discussões sobre Dualismo x Materialismo, pois esse tipo de coisa não faz sucesso na TV. Acredito que vá se discutir muito o papel que máquinas inteligentes terão na sociedade e que espécie de direitos civis elas poderiam (deveriam?) ter.

Diferente de sua antecessora, Caprica não deve ter muitas cenas no espaço, nem terá um foco muito militar. Como Galactica, os dramas e a caracterização dos personagens devem ser seus pontos fortes. Fiquei muito impressionado com o design da série, em particular a folha-computador. A série promete! Pena que ainda vai demorar um pouco para estrear nos EUA, quanto mais por aqui. O excelente episódio-piloto foi lançado diretamente em DVD e já pode ser conferido. Não percam! É Ficção Científica de primeira!

Semana FC 1: Battlestar Galactica!

01/05/2009

(Republicado do Velho Telhado)

Duas entradas nesta semana, para compensar o hiato dos feriadões recentes. O assunto em pauta agora é Ficção Científica na TV. Em particular, o que mais houve de inovador nesse campo – Battlestar Galactica.

Alguns de vocês talvez se lembrem da série antiga do mesmo nome. Lançada em 1978 no esteio da popularidade do primeiro Guerra nas Estrelas, Galactica contava a história da quase extinção e fuga da Humanidade, sendo perseguida pelos cruéis robôs alienígenas Cylons. Como era comum na época, a série tinha todos os clichês daquilo que chamo de “fantasia científica”, ou seja: armas lasers, raça alienígena da semana, personagens algo estereotipados e uma atmosfera um bocado kitsch. De ciência, mesmo, nada. Galactica original durou apenas uma temporada, mas deixou uma legião de fãs apaixonados. Algumas tentativas foram feitas para ressucitar a série, que eventualmente retornaria em 1980 – mas desse retorno eu prefiro nem falar de tão ruim que foi :-)

Em 2003 outra tentativa foi feita, desta vez mudando completamente o conceito. Os Cylons agora não são mais alienígenas, mas andróides criados pelo Homem para cumprir tarefas comuns e para servirem como soldados. Dotados de consciência e capacidade de pensamento independente, os Cylons se rebelaram contra sua servidão, e travaram uma guerra terrível. O conflito terminou num empate técnico, com os Cylons se retirando para um sistema solar distante para viver em paz. Não se ouve falar neles por 40 anos, até que subitamente eles retornam com força total e aniquilam bilhões de pessoas nas Doze Colônias de Kobol. Apenas um punhado de naves civis e uma única nave militar – a epônima Battlestar Galactica – sobrevivem ao Holocausto imposto pelos Cylons.

A partir dessa premissa, BSG revoluciona a FC ao tratar não mais de soluções tecnológicas miraculosas ou outras convenções do gênero, mas de tratar primariamente dos dramas humanos numa situação tão extrema: se apenas 50 mil seres humanos restaram, e se são impiedosamente perseguidos para onde quer que vão, o que é certo? O que é errado? É possível ter uma democracia, ou é melhor partir para um regime militar? Que tipo de “civilização” é possível manter? Em certa altura, um dos personagens pondera: “Não basta apenas sobreviver. É preciso merecer sobreviver”.

Essa nova abordagem na FC televisiva foi imensamente bem recebida pela crítica e pelo público. Galactica terminou recentemente e veio para mostar que SIM, é possível fazer TV que entretenha e faça pensar. Mesmo que você não goste de FC, vale a pena conferir. As três primeiras temporadas (são quatro no total) já estão disponíveis em DVD. Confira!

A seguir, resenha do episódio-piloto de Caprica, spin-off de BSG!