Mapa e território

Num mundo de smartphones, comunicação global quase instantânea e de fácil acesso à informação, às vezes é difícil lembrar que por trás de cada uma dessas inovações existe um longo processo de tentativa e erro, e que o caminho quase nunca é uma linha reta. Ao contrário, para cada nova descoberta científica ou aplicação tecnológica, foi preciso um longo tempo para que as ideias que as formaram viessem a amadurecer e a se concretizar. Nós, cidadãos do século XXI, talvez estejamos mal-acostumados. Temos mais informação disponível na ponta dos dedos do que somos realmente capazes de usar. Geladeiras inteligentes começam a aparecer nas casas mais abastadas. É cada vez mais difícil encontrar um aparelho qualquer que não contenha — ou não seja, em essência — um computador. As respostas a qualquer pergunta são fáceis de encontrar. Dúvidas são rapidamente substituídas por certezas prontas. Por tudo isso é difícil entender que às vezes até mesmo a ciência pode cometer erros factuais.

Como qualquer processo empírico, a ciência está sujeita a erros. Grosso modo, há dois tipo de erros que se costuma cometer em ciência. O primeiro é algum tipo de erro sistemático, oculto por alguma sutileza do aparato experimental, como uma calibração errada, etc. Um exemplo dramático desse tipo de erro ocorreu recentemente, quando a equipe do OPERA (um experimento ligado ao CERN para detectar oscilações de neutrinos) anunciou ter observado neutrinos se deslocando a velocidades maiores que a da luz, o que é proibido pela Teoria da Relatividade, e que no final se demonstrou ser uma falha instrumental. O coordenador do experimento, Dario Autiero, acabou pedindo demissão quando a coisa toda foi resolvida e a anomalia foi explicada como uma falha de calibração.

O segundo tipo de erro científico ocorre porque nossos instrumentos de medida são naturalmente imprecisos. Não importa o quão bem construídos eles sejam — algum erro aleatório na medida sempre vai acontecer. Mas isso não chega a ser um problema, desde que os experimentalistas sejam cuidadosos para que os erros não sejam grosseiros demais. Nesse caso, existem técnicas estatísticas para analisar os resultados dos experimentos e tirar conclusões válidas. Isso acontece o tempo todo e, de fato, é por causa desses procedimentos que as ciências naturais são capazes de avançar.

Mas há uma terceira forma de se estar errado sobre o comportamento da Natureza. É um tipo de erro que é mais facilmente evitado hoje em dia, mas que mesmo assim pode pegar algum incauto. Esse erro consiste em achar que o que sabemos sobre a Natureza é a verdade final e absoluta, e que estamos seguros que nada vai mudar.

A ciência progride graças ao Método Científico — o contínuo processo de aperfeiçoamento do conhecimento natural através da elaboração de hipóteses e do teste das mesmas em condições controladas. Por que houve tamanho reboliço internacional quando o OPERA anunciou neutrinos superluminais? Porque a Teoria da Relatividade de Einstein é uma das ideias científicas mais sólidas que existem, cujas previsões foram verificada inúmeras vezes desde sua concepção mais geral em 1915. Um resultado como o do OPERA simplesmente jogaria por terra tudo o que pensamos saber sobre Relatividade, e seria necessário elaborar uma nova teoria do zero — uma que explicasse TUDO aquilo que a Relatividade já explica e que se observa, e que além disso explicasse como neutrinos superluminais possam existir.

A Relatividade surgiu para explicar aspectos do Universo que a teoria anterior, a Newtoniana, não era capaz de explicar. Por exemplo, hoje sabemos que a luz é desviada pela presença de campos gravitacionais e, ainda mais dramático, que o planeta Mercúrio apresenta uma anomalia orbital em volta do Sol que nenhum cálculo newtoniano consegue prever. A Relatividade explica satisfatoriamente tudo isso e muito, muito mais. A teoria Newtoniana da Gravitação Universal, por sua vez, explica de maneira muito melhor os movimentos dos corpos celestes do que a teoria vigente antes dela, a cosmologia de Ptolomeu. Para Ptolomeu, era “óbvio” que a Terra estava parada no centro do Universo e que o Sol, a Lua, os planetas e estrelas giravam ao redor dela presos em esferas rígidas de cristal. A ideia pode nos parecer boba hoje em dia, mas foi levada a sério por todo mundo. E por quê? Ora, porque o modelo de Ptolomeu funcionava. Para o grau de precisão disponível na época, sem lunetas, sem telescópios espaciais, sem sequer uma matemática avançada o bastante, os movimentos celestes podiam ser adequadamente descritos pelas esferas de cristal! Ou seja, é possível ter uma ideia factualmente errônea a respeito da natureza e ainda assim tirarmos dessa ideia alguma aplicação prática útil. Ptolomeu estava errado sobre as esferas de cristal, mas ainda conseguia prever o movimento dos astros. A gravitação de Newton não podia dar conta do avanço do periélio da órbita de Mercúrio, mas era muito mais completa do que o modelo ptolemaico. E a Relatividade explica tudo isso de forma muito mais completa do que Newton, mas ainda não sabemos como conciliar a Relatividade com a Mecânica Quântica. De fato, essas duas teorias, que são as mais bem-sucedidas da física do século XX, são simplesmente incompatíveis em certas escalas. Por isso sabemos que uma delas, ou ambas, estão incompletas e vão precisar de alguma espécie de correção no futuro.

As teorias e modelos científicos que criamos para explicar nosso Universo são como se fossem mapas de um território desconhecido. Alguns mapas podem ser grosseiros, como as esferas de cristal de Ptolomeu. Alguns mapas podem ser muito bem desenhados e ricos em detalhes, como a Relatividade e a Mecânica Quântica. Mas o mapa não é o território! O melhor mapa possível sempre será apenas uma aproximação do território. A realidade última da Natureza permanecerá oculta de nós talvez para sempre.

Isso não significa que o que sabemos hoje não valha nada. Ao contrário, ter a humildade de reconhecer que até mesmo as nossas certezas mais sólidas são aproximações da realidade é que nos permitiu avançar tanto nos últimos 400 anos. É o que diferencia a produção científica verdadeira — sempre disposta a ser corrigida, sempre buscando verificar a validade das próprias afirmações — dos embustes típicos das pseudo-ciências.

Saiba um pouco mais sobre isso lendo o nosso livro — Pura Picaretagem, cuja festa de lançamento será em 20 de junho!

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2 Respostas to “Mapa e território”

  1. Transeunte Says:

    Olá, poderia deixar habilitado a leitura completa do artigo pelo rss? Não sei se tem algum motivo para ficar só o título por lá. Bem, apenas um humilde pedido. Abraço

    • Daniel Says:

      OK, mudei isso. Curiosamente, não me lembro de ter configurado assim. Tente de novo daqui a algumas horas, quando o RSS atualizar.

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