O soneto e a emenda

A gafe cometida pela Scientific American Brasil, referenciada no post anterior, rendeu muito na última semana. Dezenas de cartas de leitores foram enviadas para a revista criticando ou solicitando esclarecimento quanto aos critérios utilizados para a publicação da infeliz nota da bióloga Nina Ximenes defendendo a homeopatia. Muitos blogs brasileiros também comentaram a nota, lamentando a decisão de publicá-la.

Não sei qual teria sido a resposta do professor Ulisses Capozzoli, editor da SciAm Brasil, se as críticas tivessem ficado restritas ao âmbito nacional. O fato é que o leitor Felipe Nogueira, que também comentou o meu artigo anterior, tomou a iniciativa de entrar em contato com o blog americano Science Based Medicine, comentando a publicação da nota de Nina Ximenes e vertendo o texto completo para o inglês.

A repercussão foi imediata.

Muitos leitores americanos do blog pensaram que se tratava de uma brincadeira de Primeiro de Abril da revista, mas estava claro pelo tom da nota que não era pegadinha alguma. Por fim, Mariette DiChristina, editora-chefe da SciAm americana entrou na roda, tendo sido alertada por Tim Farley, outro blogueiro cético famoso, que organiza o excelente “What’s the Harm?”. DiChristina declarou em termos bastante severos que a Scientific American não apoia pseudo-ciências tais como a homeopatia; e que teria uma conversa com o editor brasileiro.

Nesta quinta-feira Ulisses Capozzoli publicou um pedido de desculpas no blog da SciAm Brasil. O ponto positivo é que a atitude dele em reconhecer que errou é melhor do que certos jornais científicos de renome que cometeram gafes piores no passado.

Porém…

O texto de desculpas de Capozzoli tem um tom sincero, mas há qualquer coisa de estranho ali. Primeiro ele diz que a nota passou por seus “sistemas de controle” porque a homeopatia é reconhecida como especialidade médica e porque a Universidade Federal de Viçosa-MG oferece curso de homeopatia há muito tempo com boa avaliação pelo CNPq. Ou seja, a nota passou porque o CNPq e a lei brasileira dizem que homeopatia é OK. (E se essa é mesmo a posição oficial do Conselho Federal de Medicina e do CNPq eu só posso lamentar e esperar que tal coisa seja revista algum dia. Até lá, para aqueles que acham que entidades federais de fomento e órgãos de classe deveriam se pautar pela ciência baseada em evidências, resta criticar).

A parte estranha vem agora: o editor brasileiro afirma que lê pessoalmente cada artigo, antes e depois da revisão, antes que a revista saia para as bancas. Não tenho motivos para duvidar disso. Mas se tal coisa é verdade, então como pode o sistema de controle do professor Capozzoli não ter detectado a absurda afirmação de Ximenes, já comentada aqui: “a homeopatia não se relaciona com a química e sim com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados”.

Fazer ciência, caros leitores, é qualificar e quantificar. Se não estamos qualificando e quantificando, estamos no campo do subjetivo. Muitas coisas são subjetivas e, portanto, não-científicas. E não há nada de intrinsecamente errado em ser subjetivo e não-científico! Artes e emoções costumam ser os maiores exemplos do que estou falando. Mas a partir do momento em que nos propomos a tentar entender algo a respeito da Natureza, se queremos investigar certos fenômenos físicos – e, obviamente, se queremos testar a validade de medicamentos – é por demais óbvio que somos obrigados a jogar pelas regras da ciência. E as regras da ciência nos mostram que nada do que Hahnemann e seus seguidores dizem a mais de duzentos anos faz sentido.

Capozzoli termina seu pedido de desculpas aludindo a vários erros cometidos por cientistas, muitos mais graves do que o dele (no que concordo), deixados a “título de diversão para os leitores”. Não quero dizer que o tom foi de deboche (isso seria deselegante). Portanto, deixo o meu próprio exemplo.

Trofim Lysenko foi uma figura extremamente influente na biologia da União Soviética de Stalin. Ele considerava que a genética de Mendel estava errada e desenvolveu seus próprios métodos de hibridização de plantas, visando safras agrícolas melhores. Lysenko tinha um talento político muito maior do que o científico, de modo que ele se tornou o diretor do Instituto de Genética da Academia Soviética de Ciências. Como se não bastasse, ele tratou de perseguir e mandar prender todos os críticos de seus métodos. A utilização de seus métodos “alternativos” culminou em seguidas colheitas desastrosas na URSS , o que levou à fome generalizada. E por que Lysenko era contra as ideias de Mendel? Entre outras coisas, porque achava que a ideia de características genéticas herdadas eram contrarrevolucionárias… e assim ele preferiu técnicas de cultivo que, embora utilizadas intermitentemente (e sem sucesso) desde o século XIX, caíram no gosto da nomenklatura soviética por questões ideológicas.

Moral da história: errar é humano e perfeitamente natural, mesmo entre cientistas. Insistir num caminho duvidoso, conforme demonstrado por experiências e testes realizados ao longo de duzentos anos, é temerário.

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8 Respostas to “O soneto e a emenda”

  1. Felipe Nogueira Barbara de Oliveira Says:

    Muito bom.
    Sinceramente, errar é humano. Como o Capazzoli falou, diversos cientistas erraram. E diversos ainda vão errar. A ciência não é infalível.
    No entanto, é surpreso o editor de uma revista cientifica estar mais preocupado se uma prática médica é legal ou não do que se é ciência ou não. Quando estamos falando de ciência, não importa o que juízes e advogados dizem. Para ciência é homeopatia é sim desvio de conduta e charlatanismo: homeopatas oferecem uma explicação da natureza errada e oferecem tratamentos que nada mais são que água.
    O editor Ulisses afirma que le cada palavra dos textos da revista. Então demos duas possibilidades: ele mentiu ou ele realmente leu e aceitou a terrível afirmação que a homeopatia tem a ver com a física quântica. Por incrível que pareça, eu prefiro a primeira opção, porque é inaceitável um editor da Scientific American ser convencido por tão pouco e ter tão pouco conhecimento científico.
    Espero que a SciAm Brasil publique alem da desculpa na revista um artigo explicando porque homeopatia não é ciência.

  2. Leandro Tessler Says:

    Caro Daniel,
    Só para reforçar seu texto (tentei fazer isso no meu post de ontem): o texto anterior ao pedido de desculpas no blog da SciAm Brasil chama-se “Ciência e Falsa Ciência” e faz a apologia da acupuntura, usando o mesmo tipo de argumento legalista, a partir de uma decisão de um Tribunal. Como se o Tribunal pudesse revogar a lei da gravidade…
    Ao mesmo tempo que só posso louvar a posição do editor ao pedir desculpas publicamente, ele nem menciona a posição da Mariette DiChristina nem parece estar realmente preocupado em corrigir o erro que diz assumir, o que seria na forma de publicar textos sobre a visão que a ciência tem em relação a homeopatia e acupuntura.

  3. Leonardo Martins Says:

    Reconhecer que vivemos nas “Republiqueta das Bananas” é importante, real e saudável. Mas mesmo assim assusta quando atinge saúde, educação e segurança pública. Ciência é a base do desenvolvimento de uma civilização.

    Quando a versão brasileira de uma das mais importantes revistas científicas do mundo vai na contra-mão da ciência… Isso é realmente um grito de alerta de que TUDO vai mal. Mostra desinformação, desconhecimento e não-profissionalismo.

    Que fique aí o alerta.

    Daniel, maravilhoso seu artigo.

  4. Daniel Says:

    Pois é, eu realmente não quero cometer a leviandade de dizer que o professor Capozzoli foi conivente. Mas deixou um gosto estranho o rol de furadas de cientistas no final do pedido de desculpas.

    Todo mundo erra. Todo mundo. Os cientistas erram o tempo todo e geralmente admitem quando erram. Num próximo artigo eu devo tratar dos tais neutrinos superluminais, que acabaram derrubando o coordenador de experimentos do OPERA (o que achei exagerado, aliás). Mas só pseudo-cientistas insistem em promover como verdade aquilo que já se viu que não leva a lugar nenhum.

  5. DNA Cético Says:

    […] pelo amigo Daniel Bezerra e seu último texto no blog Telhado de Vidro – “O Soneto e a Emenda“, resolvi apresentar mais alguns pontos a serem considerados. Talvez esta não tenha sido o […]

  6. Marcelo Dior Says:

    A Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão trás curso de acupuntura, e o curso de Farmácia tem matéria de homeopatia (ou homeomagia, como minha mulher e alguns colegas mais sensatos chamavam a matéria). Me pergunto quando a Enfermagem terá curso de reza e a Fisioterapia, de reiki.

  7. Homeopatia cura de Verdade Says:

    Independente da SciAm querer ou não acreditar, o fato é que milhões de pessoas no mundo se curaram ou se curam de seus males pela Homeopatia.

  8. Daniel Bezerra Says:

    O fato é que nenhum teste clínico controlado foi capaz de reproduzir as propriedades curativas alegadas pelos proponentes de Homeopatia.

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