SciAm Brasil: nem sequer errado

Sorteie aleatoriamente um amigo ou parente e as chances são que essa pessoa confia na eficácia de tratamentos homeopáticos ou, no mínimo, “conhece alguém que se deu muito bem” com um tal tratamento. A homeopatia, como se sabe, foi criada em 1796 pelo alemão Samuel Hahnemann. A linha-mestra do novo tratamento era o lema similia similibus curantur, latim para “semelhante cura semelhante”. É o mesmo princípio das simpatias populares, que já existiam no século XVIII, mas com uma roupagem mais sofisticada. A ideia de Hahnemann era que doenças eram desequilíbrios da energia vital do indivíduo. Para curar o paciente, o equilíbrio do corpo tinha que ser reestabelecido através da aplicação de soluções muito diluídas de substâncias que, pensava-se, causavam sintomas parecidos com a doença.

Levando em conta que a teoria Simpática e o modelo do Vitalismo são completamente ultrapassados (e, vale dizer, errados) é até surpreendente que a homeopatia tenha durado tanto tempo e siga tão popular. Eu suspeito que hoje em dia isso tenha a ver com o fato de que os homeopatas quase sempre recebam seus clientes com sorrisos, música de fundo suave e ambientes confortáveis. A maioria deles também dedica vários minutos à anamnese, além de demonstrar genuína disposição de ouvir o que o cliente tem a dizer. Compare isso com a maneira impessoal e apressada que encontramos em muitos consultórios de médicos que atendem em plano de saúde ou do SUS. Mas, divirjo: o ponto é que remédios homeopáticos são quimicamente indistinguíveis de água, tamanho é o grau de diluição da fórmula. Os benefícios do tratamento homeopático não parecem, por tudo quanto se sabe, diferentes do efeito placebo comum, conforme publicado em 2005 pela prestigiosa revista médica britânica Lancet.

Qual não foi minha surpresa, portanto, ao abrir a edição nº 119 (abril/2012) da Scientific American Brasil e encontrar à página 17 uma nota intitulada “A Eficiência Questionada da Homeopatia” que, a despeito do título, sugere que a aplicação desta técnica tem atingido resultados positivos na… agricultura.

Agricultura?

A autora da nota, uma certa Nina Ximenes, bióloga e pós-graduanda em educação ambiental, defende o uso de homeopatia no controle de pragas em substituição aos pesticidas usuais. A meta é nobre, sem dúvida, mas será que funciona? Bem, vejamos como a Sra Ximenes responde às críticas comuns à homeopatia (atenção para o trecho grifado):

Essa técnica é alvo de críticas quato (sic) aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contêm nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados.

Física quântica. Trabalha com energia. Se eu ganhasse um centavo cada vez que ouvisse essa…

Ainda que se dê à homeopatia o benefício da dúvida quanto à eficácia de seus tratamentos — o que já seria muito — resta à Sra. Ximenes, ou a quem quer que tenha originado a ideia exposta acima, provar tal afirmação. Qual é, exatamente, a ligação da homeopatia com a física quântica? Se “tem a ver com energia”, eu me pergunto se é possível calcular os autovalores da energia para o estado quântico do paciente. Aliás, como será que se calcula o estado quântico do paciente, dado que ele é um sistema macroscópico complexo? Qual é a função de onda das moléculas do princípio ativo dos remédios homeopáticos?

Cada uma das palavras e expressões que eu usei acima tem um significado dentro da física de verdade. Cada uma delas é usada para aplicações reais que produzem resultados observáveis e, mais importante, falseáveis. Uma máquina de ressonância magnética nuclear não produz imagens detalhadas do corpo humano simplesmente por que “tem a ver com física quântica e lida com energia”; ela o faz porque os spins nucleares das moléculas de água do paciente reagem à frequência de ressonância induzida pelo aparelho. Há equações que dizem como ele funciona e por que ele funciona e o resultado está aí para se ver. Se as equações estivessem erradas, se a teoria por trás não fosse sólida, se não correspondesse a fenômenos observáveis na Natureza, máquinas de ressonância magnética não funcionariam.

Dizer que a homeopatia “não se relaciona com a química”, aliás, é um insulto à inteligência do leitor, quer ele acredite na eficácia da homeopatia ou não. Primeiro, porque a química tem um papel preponderante na farmacocinética de qualquer remédio. O que, senão a química, vai nos dizer como uma substância será absorvida pelos tecidos do corpo? Como o corpo reagirá à presença desta substância? Em segundo lugar, a química obedece a princípios físicos que são, em última instância, quânticos — como aliás, tudo no Universo. Só que não saímos por aí tentando descrever tudo em termos de física quântica porque isso é um reducionismo idiota: equivalente a tentar descrever o comportamento quântico de um motor de automóvel. Até onde se pode enxergar, a química (e demais ciências complementares) é a ferramenta mais adequada para verificar a eficácia da homeopatia.

Já seria controverso o bastante que a Scientific American Brasil publicasse uma nota sobre homeopatia, dado o status pouco científico de sua fundamentação. Mas uma nota que afirma platitudes Nova-Eristas como a destacada acima? Eu esperava mais — muito mais — dos editores da revista.

Como diria Wolfgang Pauli, a nota da SciAm-Br não está nem sequer errada. E se este padrão de qualidade alarmante continuar, não hesitarei em cancelar minha assinatura.

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9 Respostas to “SciAm Brasil: nem sequer errado”

  1. Eduardo Derbli Says:

    HOLY FUCK.

    Esse país, definitivamente, não é sério.

  2. Daniel Bezerra Says:

    Assino a revista a quase um ano, e essa nota foi um baque. Vou escrever uma carta bastante firme para os editores e ver o que acontece.

  3. Rubens Pazza Says:

    Pois eu assino a revista desde seu primeiro número no Brasil. Acompanhei uma mudança de linha editorial, que trouxe bem mais astronomia para a revista e agora isso. É complicado.

  4. Daniel Bezerra Says:

    Eu costumava comprar os números na banca, mas passei muito tempo sem acompanhar. Decidi assinar no ano passado e não tinha me arrependido… até o dia de hoje.

    A Mariette DiChristina, editora-chefe da SciAm americana deu um puxão de orelha no Capozzoli por telefone e via twitter. Declarou em termos bastante claros que a SciAm *não apoia* este tipo de pseudo-ciência em suas páginas.

    Vamos ver o que acontece.

  5. Felipe Nogueira Barbara de Oliveira Says:

    Parabéns pela critica.
    Ajudei na criação da critica publicada no blog Science Based Medicine: http://www.sciencebasedmedicine.org/index.php/scientific-american-declares-homeopathy-indispensable-to-planet-and-human-health/

    Essa critica foi lida pela Mariette DiChristina, editora chefe da ScianAm americana e, como Daniel Bezerra mencionou, ela deixou claro que a SciAm não apoia a homeopatia e que tal matéria nunca deveria ter sido publicada.

    O editor brasileiro já pediu desculpas publicamente: http://blogdasciam.blog.uol.com.br/

    Como podem ver nas desculpas, o CNPq está gastando recurso nesse tipo de pesquisa, o que é uma vergonha para o nosso país.

  6. Daniel Says:

    Felipe, nós é que devemos agradecer a você pela iniciativa. Será que a comoção e o movimento teriam sido os mesmos sem o puxão de orelhas de DiChristina?

    Depois eu vou publicar um outro artigo comentando a resposta do prof Capozzoli. Adianto que não serão elogios…

  7. Felipe Nogueira Barbara de Oliveira Says:

    Eu acho que o movimento não seria mesmo se nao fosse pela DiChristina.
    Eu fiquei muito satisfeito com a repercussão, principalmente pela critica ter chegado na DiChristina e ter ouvido claramente a opnião da SciAm original sobre homeopatia.
    Aguardo para ler seus comentários sobre a desculpa do editor da SciAm Brasi!
    Sinta-se livre para me contactar: felipe.nogueira@gmail.com.

    Obrigado!

  8. O dia em que a Scientific American Brasil falou bem de uma pseudociência – DNA Cético Says:

    […] químicos que podem ser qualificados e quantificados”. Este detalhe foi bem discutido no blog Telhado de Vidro, do físico Daniel Bezerra. Capozzoli jamais poderia ter deixado isso passar. Não só endossou a […]

  9. len Says:

    Saudações pessoal !!

    Posso estar meio atrasado neste post deste blog pra dar minha opinião cético sobre este caso, portanto seremos diretos:

    Esta mulher é uma pseudocientista.

    link dela no youtube, aparecendo em um programa de TV: http://www.youtube.com/watch?v=qvPa9NtW9uM

    Enfim, tchau e até a próxima …

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