A teoria do universo justo

Várias vezes nos perguntamos algo como “o que eu fiz para merecer isso?” em momentos de crise. É natural e humano achar que, se formos cordiais e bondosos em nossa conduta, seremos recompensados da mesma forma. Isso pode até ser verdade na maior parte dos casos no trato com outras pessoas, mas a o triste fato é que às vezes coisas ruins acontecem com gente boa. Basta abrir o jornal para ler notícias de crimes banais, catástrofes da natureza e outros eventos totalmente aleatórios que destroem vidas preciosas.

É da mesma forma natural e humano tentar encontrar padrões nesses eventos aleatórios. Natural, porque nossos cérebros evoluíram assim; parte do sucesso de nossa espécie é graças à essa capacidade de encontrar padrões dentro do caos que nos cerca. Suspeito que as religiões e ritos primitivos tenham começado como uma forma de explicar essas coisas que fogem ao nosso controle e, com o passar do tempo, tenhamos desenvolvido noções complexas sobre as causas finais de tais eventos. Dessa forma, não é surpresa verificar que todas as culturas humanas tenham criado alguma espécie de teoria sobre a ordem intrínseca do mundo — não no sentido de leis físicas (embora a descoberta destas tenham sido um subproduto deste mesmo pensamento), mas no de leis morais e da ética. E por que não? Se cada comunidade humana desenvolvia suas próprias leis e costumes, se premiava certos comportamentos e punia outros, por que não seria o mesmo com o mundo ao redor? Como Aristóteles argumentou (em seus tratados de Física e Política), os animais pareciam existir para o bem e usufruto da humanidade e não como um fim neles mesmos.

Esse raciocínio antropocêntrico se enraizou de tal forma em nossos costumes e religiões que fomos levados a pensar que coisas ruins que nos afligem ou são por causa de nossos maus atos passados, ou são alguma espécie de teste de caráter imposto por autoridades espirituais. O Universo, afinal, é tão bem-ajustado à nossa existência que só pode ser justo.

Suponho que essa teoria seja uma base boa o bastante para fundamentar uma ética social em que todos estejam satisfeitos com seu lugar e, mais ainda, que se empenhem em buscar as boas graças do Universo comportando-se da maneira mais virtuosa possível. Mas a teoria, por mais que seja bela, não se sustenta muito bem com o que observamos no mundo. Coisas ruins acontecem, como eu disse, e temos escassa evidência de que elas sejam provações de entidades superiores, pela aleatoriedade com que atingem pessoas inocentes. Assim, tendo que escolher entre apelar para explicações cada vez mais metafísicas ou abandonar a teoria do universo justo, eu escolho esta última.

O consolo que podemos obter é que, se o Universo não é justo, tampouco ele é injusto. O Universo nos é completamente indiferente no que tange a acontecimentos aleatórios, então resta-nos dedicar nossa energia aos eventos que podemos de fato controlar. Podemos não ter como evitar um acidente ou uma catástrofe natural, mas podemos escolher ter um comportamento ético e demonstrar compaixão. E isso não é pouco.

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4 Respostas to “A teoria do universo justo”

  1. Delibriand Says:

    Richard Dawkins feelings.
    Ótimo texto :-)

  2. Daniel Says:

    E vamos retomando o blog , 500-1000 palavras de cada vez :-)

  3. R! Says:

    Belo texto.

  4. Anônimo Says:

    Caga, cagamba! caga caga ô!

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