Reality Check sobre a situação em Fukushima

Este é um post especial para complementar o que já escrevi hoje mais cedo. Como filtrar as centenas de notícias, tweets e artigos de blog que chegam das mais variadas fontes sobre a situação em Fukushima? Vou fazer um guia rápido aqui:

1 – A situação é séria. Muito séria. Se não fosse tão séria, não estaria repercutindo tanto assim. Desta forma, duvide muito de quem disser que está tudo tranquilo e que não vai ter problema nenhum. O fato é que a verdadeira extensão dos danos e das sequelas de Fukushima ainda são desconhecidas. E só saberemos mais depois que tudo estiver controlado.

2 – O Apocalipse Nuclear pintado pela mídia logo depois do terremoto é um cenário irreal. Usinas nucleares não explodem; e Fukushima não teve seus reatores expostos como em Chernobyl. China, Rússia e certamente EUA e Europa não precisam temer nuvens de contaminação radioativa. No próprio Japão, entretanto, os danos permanentes só poderão ser realmente avaliados depois que tudo estiver controlado.

3 – Não existem níveis seguros de exposição à radiação ionizante. Entretanto, estamos todos expostos à radiação ionizante do nascimento à morte. A estatística mostra que o corpo humano pode tolerar razoavelmente bem as doses a que os habitantes de Fukushima e vizinhanças foram expostos até agora — mas o vazamento no mar e a contaminação no solo precisam ser detidos logo.

4 – O complexo de Fukushima é antigo e ultrapassado. Ainda assim, resistiu a todos os terremotos japoneses dos últimos 30 anos, resistiu a um sismo 7 vezes mais forte para o qual foi projetado (e o mais forte já registrado em toda a longa história do Japão), e só apresentou problemas quando foi atingido por uma parede de água de 32 pés depois de tudo isso. Medite sobre o significado disso e compare com o que alguns estão falando sobre insegurança no planejamento de usinas nucleares.

5 – É possível que Fukushima se torne uma cidade-fantasma como Pripyat (Chernobyl) depois dos reatores serem controlados por causa da precipitação do césio-137. Também é possível que isso não seja necessário. Ainda não dá para dizer nada com certeza absoluta.

6 – Quanto mais certeza sobre as consequências do acidente um artigo qualquer demonstrar, tanto maior a chance de seu autor estar enganado. Prefira artigos que tenham (ou apontem links para) números sólidos de agências internacionais. Eu mesmo gosto de me informar na Agência Internacional de Energia Atômica – http://www.iaea.org/

7 – Informe-se corretamente. Você não procuraria um dentista para discutir detalhes de construção civil, nem veria um advogado para debater teoria literária. Procure por físicos e engenheiros nucleares para se informar sobre energia nuclear.

8 – Produção de energia 100% segura é impossível. Você pode se surpreender, mas mais gente morre por ano caindo de telhados ao instalar painés solares do que atingidos por radiação na indústria nuclear. Link: http://nextbigfuture.com/2011/03/deaths-per-twh-by-energy-source.html

Por fim, todos os anos morrem mais de trinta mil pessoas apenas em acidentes de trânsito no Brasil. Um número muito maior que esse ao redor do mundo morre em consequência das usinas de carvão; sem falar na mineração. Diante desses números de Guerra Mundial pouquíssimo se fala ou se protesta. Governos ao redor do mundo estão anunciando que vão rever seus projetos de construção de novas usinas nucleares, mas quantos estão comprometidos com investir em fontes limpas? Quantos estão orientando seus cidadãos para consumir de forma consciente? Quantos estão realmente empenhados em reduzir a dependência do petróleo?

Medite sobre isso também.

2 Respostas to “Reality Check sobre a situação em Fukushima”

  1. Fernando Says:

    Não tenho nada para comentar de útil, mas mesmo assim gostaria de te parabenizar pelo texto. Ainda é raro ver bons textos na blogosfera.

  2. Daniel Says:

    Grato, Fernando! Minha intenção é sempre informar da melhor maneira possível sem apavorar.

    A situação na usina já mudou de novo desde que postei essa entrada, então eu certamente vou precisar fazer uma avaliação depois…

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