Quatro Nobres Verdades

0 – Você é obrigado a jogar.

1 – Você não pode ganhar.

2 – Você não pode empatar.

3 – Você não pode sequer sair do jogo.

Não, não se trata de alguma filosofia pessimista. As quatro leis acima são versões bem-humoradas e profissionalmente auto-depreciativas das famosas Leis da Termodinâmica. Mas por que elas pintam um panorama tão depressivo de nossa condição?

A Termodinâmica é possivelmente o ramo mais estraga-prazeres da ciência moderna. Várias das coisas que adoramos ver em histórias de ficção científica são termodinamicamente implausíveis. Caças espaciais com pilotos humanos, por exemplo: mesmo que a gente ignore por um instante o fato que muitas manobras da FC só funcionariam numa atmosfera, um veículo desses acumularia uma quantidade tão absurda de calor o que o piloto iria cozinhar na cabine em pouco tempo!

Mas o que faz da piadinha acima uma imagem tão apropriada? Vejamos os enunciados “verdadeiros” das Leis da Termodinâmica:

Lei zero: Se dois sistemas termodinâmicos estão em equilíbrio térmico com um terceiro, também estão em equilíbrio um com o outro.
E o que acontece quando dois sistemas estão em contato e não estão em equilíbrio térmico, i.é. quando não estão à mesma temperatura? Ora, eles trocam calor entre si até que fiquem em equilíbrio! E como não existe nenhuma maneira perfeita de isolar termicamente um sistema do resto do Universo, segue que tudo e qualquer coisa neste mundo tende a trocar calor até atingir uma mesma temperatura. Daí dizermos que você é obrigado a jogar.

A lei zero, aliás, foi formulada muitos anos depois das outras três, quando se vislumbrou que este conceito era tão fundamental que merecia figurar antes dos outros na listinha das leis.

Primeira Lei: a energia não pode ser criada nem destruída, apenas muda de forma.
Vocês já devem ter visto essa em várias formas diferentes (sem trocadilho). É um conceito muito antigo, o qual percebemos intuitivamente no cotidiano, mas que sempre tentamos dobrar de alguma forma. Mas não tem jeito. A conservação de energia é talvez o segundo princípio natural mais forte que conhecemos.

Assim, se imaginarmos um sistema fechado com determinada energia E, tal sistema sempre terá a mesma energia total E, ainda que ela se apresente de maneiras diferentes.

Desde a Antiguidade sábios e filósofos eram fascinados com o conceito de conseguir extrair alguma energia do nada. Ora, não existe isso de almoço grátis, daí dizermos que você não pode ganhar, pois não há como mais energia útil aparecer se não estiver lá em primeiro lugar. Máquinas que tentem violar este princípio são conhecidas como máquinas de Moto Contínuo de primeiro tipo.

Segunda Lei: qualquer processo termodinâmico tende a aumentar a entropia dos sistemas envolvidos.
A segunda lei é a mais famosa delas, e em muitos aspectos a mais cruel. Por quê? O que é essa tal de entropia, afinal? Bem, em poucas palavras a entropia de um sistema mede quantas maneiras podemos extrair trabalho útil de um sistema — por exemplo, como fazer a energia do sistema termodinâmico trabalhar a nosso favor movendo veículos, levantando pesos etc. O problema é que ainda que comecemos com um sistema de baixa entropia, o uso continuado dele para realizar trabalho vai transformando a energia útil em calor inútil — até que todos os sistemas do Universo atinjam um lúgubre equilíbrio térmico eterno. Por isso dizemos que você não pode empatar.

A Segunda Lei é muito curiosa ainda por dois motivos. Primeiro, existem quase tantas formulações dela quantas foram as discussões sobre o tema, ao mesmo tempo profundo e controverso. Qualquer dia tenho que escrever um post (ou mais provavelmente uma série de posts) apenas sobre entropia! Segundo, apesar de seu caráter praticamente absoluto — ainda mais do que a Primeira Lei — ela é uma lei estatística e não determinística.

Terceira Lei: quando a temperatura de um sistema se aproxima do zero absoluto, todos os processos cessam e a entropia atinge um valor mínimo.
Uma valor mínimo, mas que não é necessariamente zero, diga-se. Mesmo assim, é algo alentador, não? Uma maneira de preservar nosso cantinho do Universo indefinidamente, livre da entropia destruidora, certo?

Errado.

Não é possível chegar ao zero absoluto e mesmo que fosse os processos termodinâmicos (ou seja, tudo aquilo que faz a vida interessante) cessariam. Portanto, você não pode sequer sair do jogo.

Mas não fiquem deprimidos! É justamente graças às mudanças proporcionadas pela termodinâmica que todos os nossos processos vitais, todas as nossas esperanças, todos os nossos anseios; que a própria vida, enfim, se torna possível. Resta-nos aproveitar o que aparece no meio do jogo da melhor forma!

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4 Respostas to “Quatro Nobres Verdades”

  1. ivan norberto Says:

    Irmão, agora é tarde. Já estava deprimido na metade da Primeira Lei.

    Vou ler outros posts para ver se me animo com algo por lá! :)

  2. Rutha Decoursey Says:

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