Por quês em série

Outro dia estava assistindo a uma série de vídeos muito interessantes no youtube — uma entrevista com Richard P. Feynman, um dos mais geniais físicos do século XX. Ele falava um bocado sobre a física de coisas cotidianas e como era divertido pensar sobre as leis e princípios fundamentais por trás de tais fenômenos. Um dos vídeos me chamou a atenção, quando Feynman fala sobre ímãs e magnetismo. Assistam depois do corte:

Percebam como Feynman parece relutar em responder à pergunta do repórter e como ele entra numa tangente aparentemente arrogante sobre como é difícil falar de certos temas de física para os não-iniciados sem entrar em detalhes que obviamente não são possíveis de compreender sem um conhecimento prévio de matemática e mecânica quântica. De fato, muitos comentários no youtube reclamam do ar de superioridade de Feynman.

De fato ele era bem conhecido por ter um grande ego, mas agora quero me concentrar na parte central de seu argumento, que questões do tipo “por quê” rapidamente conduzem a níveis cada vez mais profundos de significado e, principalmente, como analogias podem às vezes atrapalhar mais do que elucidar. Ele explica ao repórter como magnetismo, aparentemente uma força misteriosa presente apenas nos ímãs, é na verdade um componente intrínseco da matéria que em última instância depende das interações de partículas elementares umas com as outras; e como seria desonesto tentar ilustrar esse princípio usando coisas mais cotidianas como elásticos. O cerne da questão aqui, me parece, é que Feynman está sendo brutalmente honesto.

Para ilustrar, vou tentar montar uma sequência de perguntas do mesmo tipo de modo puramente qualitativo, começando com a que o repórter fez.

Pergunta 1 – Qual é a sensação que existe entre dois ímãs que se repelem?

Resposta 1 – Há uma força entre os pólos semelhantes de dois ímãs que os mantém afastados.

P2 – De onde vem essa força?

R2 – A força é o resultado da interação dos campos magnéticos com a matéria.

P3 – E como esse campo é gerado?

R3 – Partículas subatômicas como os elétrons geram campos magnéticos ao orbitarem os núcleos dos átomos. Além disso, cada partícula tem um movimento intrínseco de spin, que também gera uma componente de campo. Na maior parte das vezes esses pequenos momentos magnéticos anulam-se uns aos outros. Em materiais fortemente magnetizados essas pequenas contribuições se somam e vemos o campo magnético atuando a distâncias macroscópicas.

P4 – Mas por que o giro das partículas gera um campo magnético?

R4 – São propriedades intrínsecas da matéria, presentes em todo lugar.

P5 – Certo, mas o que isso significa?

R5 – Que o mundo é do jeito que é?

* * *

Acho que Feynman estava sendo um tanto quanto impertinente, mas ao fazer aquele desvio todo ilustrou um panorama muito mais amplo do mundo ao nosso redor — e, incidentalmente, disse a mesma coisa que o sintetizado acima. Vou deixar o mérito da arrogância ou não do cientista para o leitor julgar :-)

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