Saindo do armário

Meu nome é Daniel, tenho 35 anos, sou Bacharel em Física e ateu. Pronto, saiu. E é impressionante que declarar algo algo que já é praticamente conhecimento público possa ser tão difícil.

Ontem eu estava conversando via twitter com dois amigos sobre o tema do veto do Congresso francês ao uso da burca e das possíveis conseqüências, além da moralidade do ato em si. Ao longo da conversa, senti um familiar e desagradável desconforto: mesmo depois de todo esse tempo ainda me sinto estranho ao declarar a minha falta de fé num espaço público, como se isso fosse de alguma forma “errado”. Mais ainda porque horas depois do fim do bate-papo, uma má notícia inesperada caiu no meu colo e me deixou com uma angústia atávica que me persegue há tempos: será que Deus não está me dando uma tungada?

Flerto com o ateísmo faz mais de dez anos e há pelo menos cinco me defini como “agnóstico” (o que epistemologicamente ainda é o termo mais correto para descrever como penso). Foi uma longa caminhada desde meus dias na Igreja Presbiteriana, dos quais não guardo rancor algum. O Deus que me apresentaram na infância era amoroso e gentil e muito embora as atrocidades do Velho Testamento me incomodassem, eu tinha a simples Fé de que tudo estava certo de alguma maneira.

Muito estudo de Física e Biologia, assim como certas leituras (Saramago é tão responsável pela minha descrença quanto Dawkins ou Sagan) me fizeram ver que a posição teísta é muito fraca e que o pensamento religioso não faz sentido algum, por mais bem intencionado que possa ser. Mas desde esta época o desconforto me persegue. Simplesmente nunca consegui lidar com naturalidade com a minha descrença fora de certas zonas de conforto, como meus pais, minha mulher e os amigos mais próximos. Suponho que ter uma instrução religiosa na infância seja algo muito difícil de superar, seja ela benigna ou não. O ex-religioso é assombrado por uma certa “culpa” por vários anos mais tarde, que não é racional mas nem por isso deixa de ter força.

No final, a tal notícia que me incomodou nem era tão ruim assim (era apenas inesperada). O episódio me mostrou, entretanto, que precisava admitir com um pouco mais de veemência e acima de tudo naturalidade que não acredito no sobrenatural ou no milagroso. Então aí está.

Para quem estiver curioso, deixo um vídeo muito bom enumerando as principais razões pelas quais acreditar em Deus(es) não faz muito sentido. Há muito, muito mais, mas é um bom resumo. E para quem quiser saber ainda mais, escreva aí nos comentários, que tenho uma boa lista de livros e sugestões.

Tags: ,

4 Respostas to “Saindo do armário”

  1. Daniel Gárgula Says:

    Sair do armário é sempre uma boa libertação em vários sentidos. Nasci e cresci agnóstico. Filho mais velho de um pai intolerante com a religião, permaneci assim por longos 35 anos. Hoje sou um cristão, muito feliz e em paz. Fiz o caminho contrário e não me arrependo em nada.

    E não me importa se você tem ou não religião pois o que ao meu ver tem a devida importância são seus atos. Eles sim indicam quem você é. Se você consegue ter paz conversando com Deus, com um joystick de PS3 ou com dados de RPG isto sim vale muito. Claro que brinquei com alguns exemplos mas a verdade está na simplicidade do fato que você tem o livre arbítrio para levar sua vida da melhor maneira, desde que isto não atrapalhe a de ninguém!

    O mais importante ainda é ser feliz! Parabéns!

  2. Daniel Says:

    Costumo dizer que não me importo com a crença ou descrença de cada um, mas o que cada um faz com essa crença e descrença. É isso aí :-)

  3. Renato de Recife Says:

    Eu ainda estou meio que em conflito nessa questão.

    Tenho uma tendência ao sentimento religioso, mas até hoje nunca encontrei nenhuma religião que me satisfizesse, já tentei Igreja Católica, Batista e Presbiteriana, já frequentei Centro Espírita Kardecista, já tive longas conversas com seguidores de Umbanda e do Judaísmo, mas sempre que a conversa chega na posição em relação a outras religiões, eu me decepciono.

    Nunca procurei uma definição sobre o que acredito, busco acreditar nesse Deus amoroso da infância que também conheci, mas tento ignorar o deus intolerante e cujo amor é seletivo, que foi o que vi nas religiões que procurei conhecer.

    Parabéns pela “saída do armário”.

  4. Daniel Says:

    Renato, o pulo do gato para mim foi perceber que eu posso ser bom, moral e ético sem que isso venha de alguma força externa. De fato, moral e ética são convenções do indivíduo e da sociedade como você, sendo um bom estudante de Direito, deve saber.

    Quanto à existência de um Ser metafísico superior o vídeo acima é apenas a ponta do iceberg. Existem inúmeras objeções a serem levantadas para qualquer ideia de Deus(es) que se proponha. Além disso, o avanço das ciências empurrou o papel que tal Ser pudesse desempenhar para uma gama cada vez mais limitada de opções. No final, podemos imaginar uma espécie de Demiurgo que tenha vindo ele mesmo não se sabe de onde e que tenha criado este Universo e depois não se importou mais com ele. E aí, para que acreditar num Deus assim?

    E aí tem aquela outra coisa: um hindu certamente acredita no Lorde Vishnu com a mesma sinceridade que um islâmico acredita em Alá e que os nórdicos acreditavam em Thor e Odin e um grego antigo acreditava no Olimpo. Cristãos são ateus em relação a todos esses e estão prontos a levantar objeções (bastante pertinentes, eu diria) quanto à existência deles. Eu sou apenas ateu em relação a um deus a mais :-)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: