Chuva

Se você não está isolado do mundo, deve ter visto que o Rio de Janeiro está debaixo d’água desde o final da tarde de segunda-feira. A foto ao lado é da Praça da Bandeira, tradicional ponto crítico de enchentes na cidade desde sempre. Agora, 08h35 do dia 07 de abril, chove ininterruptamente há mais de trinta horas. O alagamento em vários pontos da cidade é comum em ocasiões assim e dado que as autoridades informam o maior volume de chuva das últimas décadas, não é surpresa que o caos tenha se instalado.

Antes de qualquer análise, é preciso lembrar que a topografia do Rio não ajuda. O maciço da Tijuca corta a cidade no meio, ficando de frente para o mar. É composto de rocha com uma capa de terra por cima. Quando chove forte assim, as encostas não absorvem a água, que escorre para baixo — independente de haver ocupações ilegais. Na Zona Sul a água corre para o mar e se a maré estiver alta (como aconteceu na segunda-feira) pode haver maior acúmulo nas ruas. Nas Zonas Norte e Oeste há muitos rios e canais que recebem o escoamento do asfalto. Em toda parte o grande problema é o lixo acumulado nas ruas, que entope os bueiros e prejudica o sistema de drenagem. Não falta gente para criticar a falta de educação do povo que joga lixo nas ruas, o que é um fator importante nesta equação.

Historicamente a cidade sofre inundações catastróficas como essa duas ou três vezes por década. Com o aquecimento global e as mudanças climáticas, a tendência é que o volume de chuvas aumente e que eventos assim sejam mais freqüentes. Diante desse cenário, me parece que três medidas são óbvias:

1 – Impedir a ocupação ilegal das encostas. Como argumentei, com chuvas fortes assim não faz diferença se o morro está ocupado ou não. Mas sem construções há menos mortes quando a lama e as pedras inevitavelmente rolarem. Analogamente, rever as políticas de ocupação urbana em toda a cidade.

2 – Fazer um programa sério de educação sobre jogar o lixo nas vias públicas, com pesadas multas para quem o fizer.

3 – Talvez o mais importante e o mais difícil: repensar o sistema de drenagem em toda a cidade, talvez com a construção de piscinões subterrâneos capazes de absorver volumes de chuva superiores a 400 ou 500 mm/dia, algo como o dobro do que se observou agora .

Não adianta culpar a maré alta, lamentar a quantidade de chuva, ou dizer que a população não tem noções de cidadania. Embora tudo isso seja verdade, eventos climáticos extremos assim vão se tornar mais comuns, então é melhor que o planejamento de longo prazo seja retomado.

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4 Respostas to “Chuva”

  1. Osias Says:

    O mais difícil é o item 2, na minha opinião.

  2. MilordeAlan Says:

    Concordo com você, Daniel. Essas medidas são tão obvias que a unica coisa q vem a minha cabeça para não serem feitas é a sacanagem dos governantes. Dinheiro sabemos q tem, já q desperdiçam fazendo Estagios descartaveis (vide o Engenhão), e promovendo uma olimpiada e copa q não haveria de ser feito no momento visto a necessidade e prioridade na infraestrutura da cidade.

    Já pelo q foi dito pelo Osias, eu discordo, este é o item mais facil de serem implantados e de terem resultado, apesar q este resultado será a longo prazo. Educação deve ser uma medida imediata para implantar, mas de resultado a longo prazo, entretanto com o investimento sério em educação de cidadania vc pode diminuir drasticamente tanto o jogar lixo, como o respeito no transito, como o respeito entre as pessoas…

    • Daniel Says:

      Nesse ponto eu estou com a Cora Ronai: se o cinto de segurança pegou, se a luta contra o tabagismo pegou, se a Lei Seca está pegando, educar o povo para não jogar lixo nas ruas tem que pegar. Não pode ser assim tão difícil.

  3. Flavio Abal Says:

    Eu creio que o item 1 bate bem de frente com as políticas demagógicas dos nossos ditos “representantes”, já que se vc tira o barraco do cara ( mesmo que este esteja embaixo de uma pedra ou na beira de um precipício), o tal cara não vota em vc…eu realmente creio que as eleições podem vir a ficar divididas entre os que defendem o racional – desocupar estas áreas de risco- ou o populista . O pior é que há uma séria tendência ao segundo…

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