Falhas de Divulgação

Ontem recebi uma prima que mora nos Estados Unidos há alguns anos. Entre uma conversa e outra, ela comentou que comprara junto com o marido uma luneta para observar o fenômeno Marciano deste agosto – o tal que já escrevi a respeito aqui, e que não vai acontecer. Ela ficou um pouco decepcionada quando contei que não ia ser bem assim; e o marido (via internet) disse que as duas filhas, de dez e doze anos, passaram muito tempo pesquisando na internet tudo sobre a aparição gigante de Marte no céu.

Carl Sagan relatou um encontro que teve certa vez com um taxista, o qual era bastante curioso acerca do mundo e da ciência e dono de um admirável entusiasmo. Infelizmente, o taxista também parecia preferir explicações fantásticas sobre essas coisas do que prestar atenção ao que a ciência tinha a dizer. Sagan tentou mostrar que as coisas não eram como ele pensava, mas que de fato havia um bocado de coisas maravilhosas ainda por descobrir. O taxista ficou um bocado desconfiado e não sabemos que fim a história teve.

A lição mais óbvia a se tirar de ambas as histórias é que teorias fantásticas têm muito mais apelo à população em geral do que a ciência de verdade. Primeiro, porque são mais imediatamente compreensíveis ao povo leigo: embora tenham não pouca dose de buzzwords e falso jargão, costumam fazer uso eficiente de analogias, o que aproxima sua mensagem do cotidiano comum. Segundo, porque a ciência de verdade é vista como algo aborrecido. Já mencionei isso por aqui algumas vezes. A falha dos profissionais de ciência em comunicar de maneira apropriada suas atividades para a população leiga é talvez o fator que mais contribui para o poder de penetração das fantasias e fraudes científicas.

Há quem diga que coisas como a fraude de Marte são inofensivas – ao menos comparadas com coisas mais sérias, tais como a campanha anti-vacinação ora em voga nos EUA e na Inglaterra. Isso é verdade apenas até certo ponto. Quantos taxistas de Sagan, quantas outras crianças entusiasmadas não existem por aí que recebem informações incorretas – mas muito mais polidas e bonitas – e que acabam desapontadas quando são expostas à ciência de verdade? O mais trágico é que a ciência de verdade É emocionante e cheia de entusiasmo; e que todo mundo – todo mundo mesmo – tem sede de conhecimento. É preciso apenas saber comunicar bem o tal Senso de Maravilhamento.

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4 Respostas to “Falhas de Divulgação”

  1. Leo Says:

    Daniel,

    Os cientistas estão por demais absortos em conseguir seus resultados para se darem ao trabalho de comunicá-los de forma apropriada . Os picaretas estão sempre dispostos a comunicar qualquer coisa independentemente do resultado… Quem tem maior capacidade de atrair o interesse do público?

    []s,
    Leo.

  2. Daniel Says:

    É o famoso “explica, mas não justifica”. Já está mais do que na hora de mudarmos de tática. Nós, profissionais de ciência, temos falhado miseravelmente na comunicação com o público geral; e já tem sido assim por pelo menos 20 anos.

  3. Luiz Felipe Vasques Says:

    > Carl Sagan relatou um encontro que teve certa vez com um taxista, (…)

    “O Mundo Assombrado Pelos Demônios”, vale a pena a citação. E ele ainda culpava o desperdícios de mentes ávidas como a do taxista pela falta de divulgação científica.

  4. Daniel Says:

    Ah, boa! Eu estava em dúvida se a citação era desse livro ou do outro, “Bilhões e Bilhões”.

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