Desabafo sobre o Movimento Cético

Até o ano passado eu participava ativamente em sites de discussão e divulgação do Ceticismo. Acreditava, como ainda acredito, que um pouco de pensamento crítico não faz mal a ninguém. De fato, num mundo polarizado como o nosso, é muito saudável estar aberto a rever as próprias posições e ter a humildade de admitir que talvez estejamos errados sobre tal ou qual assunto.

Infelizmente, o que era para ser um passatempo agradável e uma maneira de desenvolver as ferramentas da argumentação lógica tornou-se uma chatice. Não por ter me desiludido com o ideal do pensamento crítico, mas porque a convivência com certos radicais – céticos e não-céticos – me deixou enjoado.

Vejam bem: eu não tenho o menor problema com quem acha que Homeopatia funciona, ou acredita em Astrologia, ou no Tao da Física Quântica. Acho tudo isso uma bobagem (e tenho razões muito bem fundamentadas para quem quiser debater o contrário); mas no fim das contas isso é problema de quem acredita. Eu não tenho o menor direito de chegar para um cidadão desses e tentar convencê-lo do contrário. Espero apenas uma certa reciprocidade – que uma pessoa assim não fique me alugando. Da mesma forma, aborrecem-me aqueles que se recusam a compreender que só porque uma pessoa tem uma crença não-racional, tal pessoa não é automaticamente idiota ou mal intencionada.

Nos últimos tempos mais e mais havia bate-boca em vez de discussões ponderadas – se um pouco mais exaltadas – na internet. Discussões acaloradas podem ser um pouco desagradáveis porque sempre há o risco da carga emocional atrapalhar o encadeamento lógico das ideias. No frigir dos ovos, porém, são coisas toleráveis e típicas do diálogo. O problema começa quando o diálogo cessa e tudo se resume a repetições dos mesmos argumentos. Pior ainda, ultimamente os fórums de debate vem se enchendo de achismos travestidos de opiniões embasadas (seja lá a respeito do que for), contaminando ainda mais o ambiente.

No fim, é uma questão de vaidade e de querer impor a sua própria versão de radicalismo. E eu não tenho mais energia para isso.

O Ceticismo em que eu acredito tem muito mais a ver com combater iniciativas tais como a promoção do Criacionismo em escolas públicas e em desmascarar charlatães óbvios como Kevin Trudeau – coisas que realmente podem ser prejudiciais à saúde do indivíduo ou à sociedade como um todo. Tem muito mais a ver com ações concretas tais como escrever para jornais e políticos, publicar blogs, promover debates com alunos em sala de aula sobre os mais variados temas, evitando sempre a simples doutrinação. Tem a ver, enfim, com respeito à pessoa, mesmo que não se respeite as opiniões dela.

O que acreditamos ou deixamos de acreditar não faz a menor diferença. O que importa é o que se faz depois de declarar isso.

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8 Respostas to “Desabafo sobre o Movimento Cético”

  1. Daniel Braga Says:

    Daniel, durante muito tempo e sem conhecer um coletivo ou causa, fui cético e agnóstico. De uns tempos para cá encontrei na religião algum conforto para inquietações minhas (todos as tem).

    Me vejo hoje muito bem, respeitando a todos e tendo minhas crenças pessoais sem perder a visão crítica.

    Como você levanta o problema é de fronteira. Quando alguém tenta te impor algo sem respeitá-lo, independente do lado. O meio termo é o ponto saudável de discussão ao meu ver para que não nos tornemos fundamentalistas, céticos ou não céticos.

  2. Daniel Says:

    Eu estou bastante confortável com meu agnosticismo. A minha “crise de fé” é nas pessoas e em sua capacidade de atacar um problema objetivamente. E na incapacidade de grande parte delas de debater racionalmente.

  3. McFly Says:

    Engraçado, quando vemos um espaço como o BA e depois passamos por qualquer fórum de ciência brasileiro, e reparamos a diferença cultural. Me lembra os tempos em que o mundo deixou o Orkut para os brasileiros. Todo mundo queria impôr sua cultura aos demais, porque sabemos mais. Falta de cidadania, isso, pra começo de conversa. Ausência de diálogo, completa.

  4. Daniel Says:

    Talvez haja um componente cultural, mas eu me refiro a algo muito mais profundo e que independe de barreiras (afinal, o BA modera bem o espaço de comentários dele): a falta de noção que as pessoas têm quando debatem o que quer que seja com partes de opinião contrária.

    Nos comentários do You Tube daquele vídeo que mencionei outro dia sobre a escala dos planetas e estrelas tem um monte de criacionistas fazendo bagunça, por exemplo. Em listas de discussão gringa sobre RPG (!) o que não falta é flamewar. E a Direita Religiosa em qualquer país é simplesmente tétrica, mas a dos EUA é sinistra.

    Mas sim, é a total ausência de VONTADE de dialogar. E isso é transcultural.

  5. McFly Says:

    Pode ser. Por isso preferi citar o BA a generalizar.
    De qualquer forma, ainda citando o BA, a quantidade de participantes (e excluo trolls, quando falo isso) chega a ser assustadora.

    Você tem alguma lista bacana de blogs e espaços pra discutir ciência na internet brasileira? Ou todos os links estão ali do lado? Pergunto porque conheço poucos lugares onde é efetivamente interessante conversar sobre o tema (e este têm sido um deles, pra mim).

  6. Daniel Says:

    Bom, primeiro obrigado pelo elogio :-)

    Agora, blogs brasileiros de ciência… hmm, eu costumava acompanhar o do Marcelo Coelho, biólogo, que escrevia na UOL. Participo de uma lista de Astronomia do Yahoo, o Clube d’Astronomia. Há o Física Divertida, que não vê atualizações faz algum tempo.

    Tirando isso, há outros sites não muito interativos, mas que são interessantes mesmo assim. Citaria o Feira de Ciências, o site do Planetário da Gávea (RJ), o do Museu de Ciências e Tecnologias da PUC-RS, entre outros.

    Divulgar ciência no Brasil é um trabalho de formiga, mesmo :-)

  7. Antonio Andrada Says:

    Gostei do texto, mas ele ainda está muito preso a triade iluminista “Verdade, Certeza e Razão” que não permite uma critica que vá alem da logica racionale dos jogos de poder da modernidade.

    Porém não podemos dialogar esperando apenas ouvir o que nos contenta, dessa forma seria um embuste tal monólogo.

    Não podemos esperar diálogo em uma sociedade e ficar criando fronteiras e dicotomias entre “tipos de conhecimento” (quem é charlatão e quem não é…), impondo politicas hegemonicas e universais (combater o criacionismo na educação e outros facismos.. etc..). Não vejo maneira de se dialogar com outras lógicas (esencialistas, por exemplo) se o discurso do materialismo é exclusivista e autoritário (dogmático como processo social). O ceticismo não é policia de ninguem!

    Lembremos também senhores que também não podemos criar uma imagem da ciencia que beneficie nossas intenções politicas – o “racionalismo critico” é apenas uma das filosofias epistemes que regem a ciencia e que por sinal sofreu criticas devastadoras nas ultimas decadas. A ciencia não é e nunca foi um processo unico feito de uma maneira só.
    Não vou me alongar, já que a tonica do topico é “o respeito as ideias e a discussão” eu prefiro e recomento posturas mais libertárias como o pluralismo epistemico, acho tais ideias mais relevantes aqui do que a ilusão dos metodismos modernos que parasitam a mente dos movimentos ceticos e degeneram sua visão critica.

    Quem quiser ler mais, recomendo o livro:
    :
    “Ciencia em uma socidade livre”
    http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=1296

    ou no texto:

    “Como defender a sociedade contra a ciência”
    http://stoa.usp.br/daros/files/2856/16814/feyerabend.pdf

    • Daniel Says:

      Existem os tais jogos de poder, sim, mas eles se restringem às políticas e burocracias da vida acadêmica e às pequenas demonstrações de vaidade intelectual. Fora disso, eu fico constantemente surpreso com a resistência dos estudiosos de Humanidades em compreender que as leis naturais simplesmente *são*, sem se importar com o que físicos, engenheiros ou, pasme, filósofos, pensam sobre elas.

      Tenho uma grande preguiça de me envolver em qualquer debate que comece por afirmar que “ciência é um construto social”. Bem, sim. Claro que é. Ao analisar os pequenos jogos de poder e as vaidades envolvidas eu acho que Feyerabend et. al. acertam na veia. Mas uma coisa são os joguinhos acadêmicos; outra totalmente diferente é a maneira como o método científico produz conhecimento. O que você tão casualmente dispensa como produto de um Iluminismo já fora de moda é exatamente o método que permite que tenhamos essa agradável conversa via internet :-)

      A ciência produzida por humanos não é A Verdade, mas uma aproximação da verdade. Toda verdade científica é sempre provisória. Quando ela funciona e se confirma, ótimo. Temos máquinas de ressonância magnética, computadores mais rápidos e outros confortos. Quando alguma coisa fica diferente do esperado — e quando se elimina a possibilidade de erros — então o paradigma vigente muda. Veja por exemplo o recente caso dos neutrinos superluminais do CERN.

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