Simonal

Ontem assisti ao documentário “Simonal: ninguém sabe o duro que dei“, de Claudio Manoel. Era um assunto que eu sempre ouvi falar muito por alto enquanto crescia, mas que não fazia a menor ideia do que se tratava. E não ouvi falar porque quase ninguém falava.

Wilson Simonal era negro, pobre, filho de empregada doméstica que não teria como alcançar muito mais do que o posto de sargento do Exército, não fosse pelo seu extraordinário carisma e pelo seu dom para a música. Tornou-se um dos cantores mais populares dos anos 60. Chamado de Rei do Suíngue, era um dos únicos brasileiros que cantava rock (entre outras coisas) e rivalizava com os Beatles nas baladas da época. Tinha um comando invejável da plateia. Brincava com ela como queria, chegando a regê-la como um coral enquanto saía do palco para tomar café na esquina, voltar, e ainda encontrar todo mundo cantando. Era mais do que um cantor, tornou-se um verdadeiro entertainer muito antes que no Brasil se conhecesse direito esta palavra. No auge do sucesso era bem recebido onde quer que fosse e levava uma vida de rei, sem se preocupar com quanto estava gastando.

Os críticos diziam que o sucesso o havia deixado muito mascarado – ao que ele respondia, debochando: “sempre fui mascarado, bicho”. Com três carros importados, cobertura na Zona Sul, muitas namoradas e uma tremenda marra, não era de surpreender que Simonal não tivesse muitos amigos. Aliás, ele não queria ter nada a ver com o engajamento político que polarizava a classe artística na época. Seu negócio era cantar e gastar dinheiro.

E tanto gastou que uma hora ia acabar. Demitiu seu contador, desconfiado este o estava roubando. O homem moveu uma ação trabalhista contra Simonal, que ficou muito aborrecido. Chamou dois amigos da época do exército para “aplicar um corretivo no ladrão”.

Má ideia em qualquer contexto – e péssima ideia em 1971.

O pobre homem desapareceu por dois dias. Foi barbaramente torturado e obrigado a assinar uma confissão dizendo que roubara Simonal. Sua esposa, enquanto isso, deu parte na polícia e quando o contador voltou para casa o delegado não teve dúvidas: mandou prender Simonal. Nas audiências do caso, o cantor atende ao que provavelmente foi orientação de seu advogado e diz que era… informante do DOPS.

A tentativa de intimidação não apenas não deu certo como valeu a Simonal uma bola preta que duraria até o final de sua vida. Era uma época de extremos e, para quem vivia no limite, se você não estava puro de um lado – esquerda ou direita – certamente tinha “se vendido” para o outro.

Simonal foi esquecido. Seus discos foram recolhidos, os poucos shows que conseguia marcar, esvaziados, e ninguém ficou ao seu lado. Amargou um ostracismo até o fim da vida. Não era um inocente, sem dúvida, mas foi o único a não ter qualquer espécie de anistia.

O excelente documentário de Claudio Manoel tem a grande virtude de contar a história de vários ângulos. Entrevista o contador, por exemplo, coisa que nestes trinta e poucos anos ninguém tinha feito. Fala com Ziraldo e Jaguar (este visivelmente constrangido), do Pasquim, sobre os cartuns e matérias hostis que fizeram na época. Fala com empresários, amigos e demais personalidades. E mais importante, fala. Simonal teria gostado.

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2 Respostas to “Simonal”

  1. Daniel Braga Says:

    Daniel, muito bom ler sua análise do documentário. Vou buscar assistir e retornarei no Mausoléu do Gárgula com a minha crítica.

  2. Daniel Says:

    Vai logo porque já, já vai sair de cartaz! Tente assistir até quinta-feira!

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