Da falta de oportunidades e da valorização de títulos acadêmicos

Leio no Blog do Luis Nassif a carta de um jovem acadêmico lamentando a falta de oportunidades para Mestres e Doutores recém-formados. O rapaz afirma ainda que ele e a noiva (também ela titulada e incapaz de trabalhar em sua área) decidiram emigrar em busca de novas oportunidades.

O assunto não é novo e dificilmente se pode dizer que há consenso quanto às causas da pouca absorção de toda essa gente qualificada pelo mercado. Sobram achismos e evidências anedóticas; especialmente sobre o que emigrantes brasileiros encontrarão num país estranho. Falarei da emigração noutra hora. Hoje quero comentar sobre essa falta de oportunidades.

Por inúmeras razões históricas, o Brasil escolheu investir em matéria-prima e nem tanto em bens de consumo. É só ver o nosso portfólio de exportação para saber do que falo. Assim é que quando a indústria precisa de algum desenvolvimento tecnológico prefere pagar por algo já pronto. Por si só isso não tem nada de ruim e é uma decisão de negócios inteligente, dado que somos mesmo atrasados. Mas raras são as empresas que investem ativamente em pesquisa para que seja possível quebrar esse ciclo a médio ou a longo prazo. Sem esse investimento – e conseqüentemente sem a demanda necessária por conhecimento técnico – não é surpresa alguma que o mercado não consiga absorver profissionais com vários títulos acadêmicos.

Que existam milhares de pessoas com diplomas de Ensino Superior não ajuda também. Lá pelos anos 90 criou-se a exigência de diploma para cargos que qualquer um com curso técnico equivalente ao Ensino Médio poderia ocupar. Ao nivelar artificialmente a competição no terceiro grau as empresas criaram as condições para saturar o mercado com diplomas.

O que dizer da opção pelo emprego público? Nas universidades públicas um professor doutor titular com dedicação exclusiva ao ensino e pesquisa ganha algo em torno de R$ 6 mil. Um professor auxiliar ganha substancialmente menos. As vagas para titular são raras e disputadíssimas, pois dependem da aposentadoria do ocupante anterior ou da abertura de novas universidades – o que de fato tem acontecido recentemente, mas não o bastante para absorver todo mundo.

Fora da Academia existem outras chances no emprego público, claro, mas nem todas são tão atraentes assim. Recomendo abrir a Folha Dirigida e ler os editais dos grandes concursos para ensino superior. A grande maioria pede extenso conhecimento legal. Isso para não falar na disparidade de salários entre os cargos específicos para Direito e os demais. Já vi salários de 14 mil, 19 mil ou até mais; tudo isso em regime estatutário. Cargos para outras áreas são muito menores, além de serem regidos pela CLT.

Minha impressão é que o país continuará tendo excesso de pessoal super-qualificado enquanto não deixar de ser um país de Serviços. É muito fácil criticar os acadêmicos de falta de empreendedorismo, por exemplo. Difícil é entender que sem pesquisa pura – e por que não dizer, sem conhecimento teórico – pouco conhecimento prático novo pode ser adquirido.

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2 Respostas to “Da falta de oportunidades e da valorização de títulos acadêmicos”

  1. Victor Barone Says:

    “Que existam milhares de pessoas com diplomas de Ensino Superior não ajuda também. Lá pelos anos 90 criou-se a exigência de diploma para cargos que qualquer um com curso técnico equivalente ao Ensino Médio poderia ocupar. Ao nivelar artificialmente a competição no terceiro grau as empresas criaram as condições para saturar o mercado com diplomas.”

    Resumiu a ópera.

  2. Daniel Says:

    Quanto mais eu observo o sistema – e por “sistema” entenda-se desde a política, os 3 poderes, o mercado, o sistema bancário, o ensino básico e superior, etc. – mais eu acho que ele é feito para não dar certo, tantas são as armadilhas e ciclos viciosos que ele próprio gera. É patológico.

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