Da curiosidade infantil

Já repararam como as crianças têm perguntas interessantíssimas? Especialmente as menores, ainda na fase de descobrir o mundo, costumam perguntar muitas coisas que a gente nem imagina, ou que viu na escola faz tempo e já esqueceu. Adriana Calcanhoto tem uma música sobre isso que eu acho muito legal, por ilustrar a naturalidade com que essas questões são feitas.

“Mãe, por que a gente vai pra frente quando o ônibus freia?”, escutou uma colega minha hoje do filho de cinco anos. “Por causa do princípio da inércia”, respondeu corretamente ela, sem entretanto saber entrar em maiores detalhes. Vou tentar ajudar um pouco :-)

Tudo no mundo tem uma determinada quantidade de movimento, que é conservada. Ou seja, tudo no mundo “gosta” de ficar parado ou andando, exatamente do jeito que está!

Mudar essa quantidade de movimento é difícil – requer a aplicação de uma força. Por que é mais fácil empurrar um carrinho de brinquedo do que um carro de verdade? Porque a quantidade de movimento depende da massa, ou seja, da quantidade de matéria de que é feito um determinado corpo. O carrinho de brinquedo tem uma massa pequena comparada com o carro de verdade; então é preciso uma força pequena para mudar a quantidade de movimento do carrinho e uma força maior para mudar a quantidade de movimento do carro de verdade. É isso que a gente chama de inércia: a dificuldade de mudar de quantidade de movimento. Quanto maior a massa, maior essa dificuldade e, portanto, maior a inércia.

A quantidade de movimento também depende da velocidade. Quando um corpo que se move precisa mudar bruscamente a sua velocidade, ou a direção de sua trajetória, qualquer coisa que não esteja grudada ou amarrada nele vai conservar a quantidade de movimento que tinha antes. É por isso que durante uma freada brusca a gente vai para frente – e é por isso que usar cinto de segurança é necessário.

* * *

Às vezes eu me pergunto se perdemos essa curiosidade natural a respeito do mundo com a idade, ou se é o ritmo alucinado que a vida adulta nos impõe. Acho que é mais a segunda do que a primeira, embora eu já tenha visto quem ache que fazer perguntas desse tipo é “coisa de criança”. O que é bastante triste, já que a curiosidade a respeito de como o mundo funciona é talvez o traço evolutivo mais marcante da espécie humana. Por isso, se você é pai, ou se convive com uma criança perguntadeira, tente responder honestamente da melhor forma que puder. Não tenha medo de dizer que não sabe! Faça disso também um aprendizado e aproveite para consultar alguma fonte confiável. Desenvolva o Senso de Maravilhamento da criança que existe em você também.

Outra hora eu conto sobre uma pergunta correlata feita por uma criança grande a respeito de por que corpos de massas diferentes caem com a mesma velocidade :-)

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4 Respostas to “Da curiosidade infantil”

  1. Renata Augusta Says:

    O novo Telhado tá muuuito bom. Li todas as notas de uma tacada só. Gostei da forma leve com que trata assuntos tidos como “pesados”. É importante não só denunciar por que esse ensino decorebístico gera tantos danos a curto, médio e a longo prazo, como oferecer alternativas.

    Os seus exemplos são ótimos. Que tal publicar um livro depois nesse estilo? Com muita ilustração, foto, coisas engraçadas e curiosas, cheio de cor e vida… Assim a garotada, e mesmo nós, marmanjos, entenderemos melhor a física. Ah, espero que você venda bastante, claro.

    Tantos assuntos interessantes eram e são deixados de lado em Química, Física, Matemática, Gramática, História… Exigiam que decorássemos a tabela periódica. Pelamordedeus! E as obras literárias que obrigavam a criançada a ler. Mesmo eu, da área de Humanas, acho absurdo enfiar textos rebuscadíssimos goela abaixo de um guri.

    Professora, minha mãe sempre batalhou pra despertar o gosto pela leitura. Imagina a pauleira, com adolescentes… Mas ela conseguia ótimos resultados, porque oferecia e estimulava múltiplas linguagens, como a música, e, principalmente, ouvia com atenção o que os alunos traziam de volta, a forma de se expressarem. Lembro dela empolgadíssima, contando que o aluno fez um rap inteligente, entre mil histórias. Tenho imenso orgulho de prestar essa homenagem a uma professora de verdade, minha mãe, que está se aposentando agora da segunda matrícula, aos 66 anos.

  2. Daniel Says:

    Que legal saber disso, Renata! Parabéns para sua mãe! Concordo totalmente com ela quanto aos métodos de ensino que precisam ser adaptados para cada tipo de público e cada realidade, conquanto que se mantenha o conteúdo.

    Outro dia eu comentei com a Carina (que além de atriz é Mestra em Letras ;-)) que entendi mais do Realismo lendo o “Madame Bovary” do Flaubert do que em todo o Ensino Médio. Ela me respondeu, com muita propriedade, que se eu tinha identificado e entendido o que era Realismo em Flaubert foi porque minha professora de Literatura se esforçou muito para me dar as “chaves” básicas desse e dos demais movimentos artísticos. Qualquer dia, aliás, escrevo sobre isso :-)

    E da mesma forma que em Literatura é em Física, Biologia, Química e Matemática. A gente pode entrar na decoreba pela decoreba, vomitando “conteúdo” na cabeça dos pobres alunos, ou podemos dar um jeito de tornar tudo um pouco mais interessante – e divertido.

  3. Aline Says:

    Olá,gostaria de saber se ees texto eu posso trabalhar com crianças de 1ª a 4ª serie.
    Grata pela atenção.

    • Daniel Says:

      Olá, Aline! Sinto por demorar tanto a responder, estive ocupado com outras coisas. Por favor, sinta-se à vontade para usar este texto, desde que citando a fonte e dando o link para o artigo original!

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