Estudar Física é chato?

Por que alguns alunos têm dificuldades com Física na escola?

O primeiro contato formal do aluno com a Física é no último ano do Ensino Fundamental, a antiga 8ª série. Ali o estudante começa a ver cinemática, leis de Newton, alguma coisa de análise vetorial e um pequeno apanhado de tópicos. Se ele não tiver uma base matemática mínima – funções de 1º e 2º grau, geometria e trigonometria – é claro que vai ficar um bocado perdido. Mas há uma dificuldade mais sutil aqui, que eu chamo de problema da abstração.

Abstração é a qualidade de encontrar uma situação nova e relacioná-la a algum conhecimento anterior para compreendê-la. Também é a capacidade de aplicar um conhecimento recém-adquirido ao que era previamente ignorado e gerar mais conhecimento. Tem a ver com capacidade de leitura e interpretação de texto, mas não apenas isso. Abstração é basicamente o que nos fez descer das árvores, dominar o fogo e todo o resto.

Qualquer criança do século XXI exposta a computadores, celulares e videogames facilmente domina a linguagem deles e faz coisas que deixam a nós adultos surpresos. Isso é um exemplo perfeito de abstração. Qualquer criança que consiga fazer isso – e todas conseguem – é perfeitamente capaz de lidar com Física e Matemática. Por que então os alunos engasgam quando têm que responder a questões simples do tipo “explique por que a 3ª Lei de Newton, da Ação e Reação, não impede que uma força aplicada num carrinho de mão seja cancelada pela reação à mesma”?

Criticar as mazelas de nosso sistema educacional é a resposta óbvia e, em boa medida, a correta. O ensino é burocrático no mais das vezes e o aluno acaba sendo adestrado em vez de instruído. Sabendo que ele será cobrado de forma a reproduzir mecanicamente os resultados do quadro negro, muitos preferem decorar fórmulas e símbolos sem se preocupar com o que eles significam. Não é surpresa alguma que detestem Física.

Mas a Física é uma ciência prática e simples de demonstrar, ao menos no nível básico da escola. Pelo tanto que vi, a curiosidade dos estudantes costuma ser despertada quando alguns experimentos simples são realizados em sala de aula ou no laboratório. Dessa forma o medo daquela matéria cascuda e “exata” vai sendo substituído pelo senso de maravilhamento diante dos princípios naturais.

Mudar a forma de cobrar o conteúdo ajuda também, mas tal medida não pode ser dissociada da mudança na exposição do conteúdo. De fato, esta é toda minha reserva à posição atual do MEC. O rigor matemático precisa fazer parte do sistema de avaliação, tanto quanto o teor da aula precisa mudar para enfatizar também a parte qualitativa da matéria.

Ciência tem que ser assim mesmo: rigorosa, qualitativa e quantitativamente. De outra forma, passa a ser historinha de Ciência.

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8 Respostas to “Estudar Física é chato?”

  1. Osias Says:

    Que experimentos “simples”?

  2. Daniel Says:

    Há uma série de experimentos demonstrativos de cinemática, ótica, eletricidade etc. que não precisam de materiais sofisticados para fazer. Alguns um pouco mais elaborados podem ser feitos num laboratório razoavelmente bem equipado.

    Na UERJ temos uma exposição desses experimentos demonstrativos de Física básica. São pequenas obras de arte elaboradas – por conta própria – por um dos técnicos dos laboratórios de ensino, o Carlinhos.

    Há também exposições muito interessantes por aí, no Planetário da Gávea, no Museu de Astronomia de São Cristóvão, no Museu de Ciência da PUC-RS… a Física não precisa ficar restritas ao quadro-negro.

  3. Carina Says:

    Só tenho ressalvas ao ponto da associação de criaças, videogames, computadores, e etc.
    Na verdade, em boa parte, a “perda” ou adormecimento da capacidade de abstração e da faculdade ou sentido imaginário vem do fato dessa geração receber uma sobrecarga de informações audiovisuais que se encarregam de “imaginar” ou abstrair por elas. O garoto sabe fazer coisas assobrosas com o computador mas não faz idéia do que o computador faz para ele fazer aquilo. As coisas se resolvem sozinhas e por si só, ele só tem que dar um clique. Por isso, deparar-se com newton ou a natureza que vai exigir dele ver além do que está visível, muitas vezes. será difícil e até doloroso. Esse exercício não é praticado por sua pequena grande mente mente. E é muito mais rápido clicar do que saber e executar o que está por traz do clique, ou do vídeo.
    Outro exemplo: fotos digitais. Em pouco tempo, teremos gerações que não farão idéia do que é nitrato de prata, e todo o delicado processo artesanal para se fazer uma foto à modo antiga. Coisas se ganham, coisas se perdem… é a vida.
    beijins

  4. Leo Says:

    Daniel,

    Vejo um grande problema na preparação dos professores para lecionar esse tipo de matéria. Falta algo (interesse?) para que eles tragam este tipo de experimento e demonstração para tornar a matéria mais simples de aprender e mais interessante.

    E o problema não se limita ao ensino médio. Passei por muitos percalços com o pessoal do Instituto de Física da UFRJ quando eu fazia engenharia. A comunicação não era trabalhada, criando frustração dos dois lados.

    Isto não pode significar que o processo de aprendizado para estes profissionais lecionarem esteja mal dimensionado ou mal conceitualizado?

  5. Carina Says:

    Errata – falhas do teclado que não percebi no post anterior que não consigo reeditar:
    Crianças
    Assombrosas
    muitas vezes, [vírgula, não ponto]
    pequena grande mente (basta uma vez, né?)
    à moda antiga

    desculpem.
    beijins

  6. Daniel Says:

    Carina e Leo:

    A criança que pega rápido o trato com computadores e videogames associa idéias a formas-conceito e efeitos – exatamente o tipo de competência necessária para uma abstração matemática. O meu ponto é que o salto necessário do estágio audiovisual do computador para o abstrato puro da matemática não está sendo dado. Por quê? Porque do Fundamental ao Superior o ensino é massificado! Porque se dá ênfase à memorização e a trabalhar problemas mecânicos e repetitivos.

    Nós, que não tivemos tantas distrações quanto as crianças de hoje, passamos com variados graus de náusea (hehehe) pela escola. A garotada Geração Twitter com tempo de atenção médio de 20 segundos certamente não vai conseguir lidar com o método antigo.

    O que eu proponho é que o método de exposição mude, sim, mas que nem por isso se deixe de exigir rigor técnico nas avaliações.

  7. Gisela Says:

    Daniel, lembra-se de que eu odiava Física? Depois de velha, ao prestar vestibular novamente descobri que é uma das coisas mais divertidas… E continuo a estudar memso sem precisar tanto, o estudo de neurociência envolve um pouco disso, rs.

    Beijão!

  8. Daniel Says:

    Legal ouvir isso, Lela! Fico muito contente! E espero que você caia mesmo dentro das neurociências. Assunto fascinante!

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