Decoreba

O Ministro da Educação Fernando Haddad é fortemente contrário à memorização e cobrança inútil de fórmulas e datas nas avaliações escolares. Não há como discordar. Qualquer professor de Física sabe que simplesmente decorar equações não ajuda em nada na hora de resolver uma questão se o aluno não souber como utilizá-las e o que elas querem dizer. Tenho uma memória muito viva de alguns colegas de escola tentando compreender o infame triângulo mnemônico do Movimento Retilíneo Uniforme, por exemplo. Na hora da prova, eles sabiam desenhar o tal triângulo, mas não extraíam dali informação qualitativa alguma. Assim, se a questão envolvesse qualquer coisa além de mera manipulação algébrica, era quase garantido errar. Vejam, por exemplo, o tipo de dúvida que tem um aluno que pensa que Física é decoreba clicando aqui. A pobre alma não se dá conta sequer do que está lendo, quanto mais o que significam os símbolos das equações da cinemática!

Por que, então, eu fico preocupado quando o Ministro diz que é preciso “preservar o conteúdo sem mudar a forma de perguntar“?

Digo, a idéia dele é boa: preservar o conteúdo e modificar a maneira de cobrá-lo, visando estimular competências multidisciplinares é uma ótima iniciativa. O que eu temo é que nem todo mundo vai seguir a cartilha do MEC e que deveria servir para estimular os alunos a buscar correlações entre as diversas matérias vai virar uma gororoba insossa de fatos desconexos. Já escrevi sobre isso em fevereiro do ano passado no velho Telhado, quando comentei os Parâmetros Curriculares Nacionais.

O que pensar da prova do ENEM de 2008, por exemplo? Algumas de suas questões são bem interessantes e exigem interpretação de texto e gráficos para resolver. Outras necessitam de um grau de abstração mais sofisticado do que o que se costuma ver mesmo em vestibulares. Mas no fim das contas, a prova é muito fácil. Nas questões que abordam conhecimentos de Exatas, por exemplo, não é preciso nada mais complicado do que saber estimar áreas e montar uma função linear. É tudo muito raso.

Se considerarmos que ela pretende ser um termômetro do Ensino Médio, alguma coisa está errada. Com uma prova simples assim, perde-se um bocado de definição na ponta superior da escala. Sem aprofundar conhecimento algum, como se pretende que o ENEM venha a substituir o Vestibular? Não há como diferenciar entre um aluno muito bom de outro apenas razoável com uma prova assim. Quais seriam, por exemplo, as notas de corte que diferenciariam o ingresso numa universidade prestigiosa de uma não tão boa?

Isso, é claro, num mundo ideal. No caso brasileiro, o problema é ainda mais sério porque os alunos sentem dificuldade até em fazer uma prova boba como o ENEM, porque lhes falta simples interpretação de texto.

Não seria justo colocar a culpa inteiramente sobre os alunos, é claro. Os professores do Ensino Médio não raro estão despreparados para oferecer mais conteúdo do que a simples decoreba que o Ministro quer acertadamente destruir. E os pais tampouco ligam para o que escola está ensinando; querem é que os filhos apresentem “boas notas” e alguns chegam mesmo exigir que a educação (algo diferente de instrução, note-se) que falta em casa seja dada na escola. Receita para o desastre.

O Ministro está com a intenção correta, mas espero que ele tente acabar com a decoreba de maneira orgânica.

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