Sempre o moto contínuo

By Daniel

Só há três coisas certas nessa vida: a morte, os impostos e gente inventando máquinas de moto contínuo. Desde que o mundo é mundo há tentativas nesse sentido. A primeira que se tem notícia é do Báscara – aquele da equação de 2º grau – que imaginou uma roda capaz de girar eternamente… que não funcionou. Gente do calibre de Leonardo daVinci e Jean Bernoulli também propuseram mecanismos diferentes sem sucesso.

Em 2006 uma pequena empresa irlandesa chamada Steorn publicou um anúncio bombástico na revista Economist, no qual declarava ter inventado uma máquina de moto contínuo. Depois disse ainda que “oito engenheiros e cientistas com vários PhDs de universidades de prestígio” tinham verificado o funcionamento do aparelho – sem citar nomes, é claro. Já estão sentindo o cheiro de fraude? Pois é.

Depois de dois anos de vai e vem e demonstrações públicas adiadas, o painel de doze jurados independentes (escolhidos pela Steorn) para avaliar a tal máquina declarou hoje que ela não funcionava como anunciado. Que surpresa…

O divertido é ler na página da Steorn a “explicação” de como a máquina (batizada de Orbo) funciona. Em vez de uma explicação, nos é oferecida uma confusa prestidigitação retórica com uma pitada de jargão científico para tapear os não-iniciados.

Mas afinal, por que é impossível construir uma máquina de moto contínuo? Bom, por causa de uma chatice chamada Lei da Conservação da Energia. Em termos leigos, não existe almoço grátis: toda energia útil de um motor tem que vir de alguma fonte, seja ela interna ou externa. E em sistemas fechados a quantidade total de energia sempre é conservada.

Em termos não tão leigos, todas as leis de conservação são conseqüência do Teorema de Nöether, que diz que toda simetria de uma lei física qualquer implica numa quantidade conservada. A conservação de energia vem do fato que as leis físicas são simétricas no tempo – o que significa, entre outras coisas, que até onde podemos verificar, elas sempre tiveram a mesma cara. E mesmo quando encontramos um potencial dependente do tempo, como uma sistema com atrito, por exemplo, a energia que “desaparece” pode ser contabilizada adotando um sistema fechado apropriado.

Ainda assim, algumas pessoas insistem. Não poderia haver uma lei ainda por descobrir, “porque afinal ainda não sabemos TUDO” (Deus, como odeio esse argumento…), que nos possibilitaria contornar essas dificuldades? Honestamente, não. Não que seja absolutamente impossível que se descubra alguma coisa que jogue as leis de conservação por terra, mas é altamente improvável. Todas elas são muito bem amarradinhas e dependem não apenas de resultados empíricos, mas de princípios físicos e matemáticos muito bem fundamentados. Mudar a maneira como elas funcionam seria ordens de grandeza mais dramático do que a mudança de paradigma causada pela Teoria da Relatividade e pela Mecânica Quântica.

Mas isso não impede sonhadores ingênuos e o ocasional patife de tentarem.

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8 Respostas para “Sempre o moto contínuo”

  1. Renata Augusta Disse:

    Gostei da explicação pros leigos de que “não existe almoço grátis”… bjs

  2. Daniel Disse:

    Estou planejando escrever uma entrada mais arrumada sobre a grande cientista Emmy Nöether, na qual esmiuçarei melhor as leis da conservação. Aguarde :-)

  3. Leo Disse:

    Desde que estudei engenharia, onde aprendi um pouquinho de física, acho engraçado esta busca pela “Quebra das leis da física” que alguns lunáticos realizam.

    Sempre que eu penso em alguma “quebra” eu me lembro das tais “singularidades” que aprendi em cálculo. Na minha opinião é ali que deveria ser realizada a busca pela tal quebra, ou não, pois ao mesmo tempo a minha mente grita incessantemente que, ao trabalhar na região de uma singularidade, as energias envolvidas “tendem ao infinito”. Ou seja, posso criar algo que pode acabar com o Universo! Ou apenas precisar de tanta energia para começar a reação que seja impossível realizar o experimento de fora de uma estrela muitas vezes maior que o sol.

    Mas sempre vão existir os “dotô” que querem passar a vida financiados por investidores interessados de ver suas fortunas explodirem ao explorar a próxima panacéia universal.

  4. Daniel Disse:

    O problema das singularidades é bem interessante e nem um pouco trivial. Suspeito (sem poder afirmar categoricamente, porque ainda não tenho gabarito para isso) que efeitos quânticos evitam ou equilibram um singularidade “de verdade”. Não sei dizer como os Buracos Negros se encaixam nisso, pois esse assunto requer um estudo que ainda não tenho :-)

    Quanto aos espertalhões, malucos e otários, esses são os mesmos desde sempre… e não acho que vai mudar tão cedo!

  5. Um salôio Disse:

    Haverá quem já tenha tentado explorar a gravitaviçâo por VARIAÇÕES DE CENTROS DE GRAVIDADE ?

  6. Daniel Disse:

    Eu não sei se entendi o que você quis dizer. Pode ser um pouco mais claro?

    Variar o centro de gravidade de um corpo implica em mudar a distribuição de massa deste. Um patinador ou skatista podem fazer isso simplesmente mudando de posição (embora nestes casos a posição do CG não se altere tanto). Seja como for, para mudar a distribuição de massa de um corpo é preciso gastar energia, o que já sabemos que não dá em moto-contínuo.

  7. ROMAM Disse:

    Tanto a transformação de chumbo em ouro almejada pelos alquimistas como a criação de um moto contínuo, jamais se realizaração sem a pedra de toque. Desde criança eu medito sobre essa engenhoca e mesmo antes de ter maiores conhecimentos de física, percebi que a reposição da energia para a continuação do movimento é idêntica à energia gasta o que leva a fatal equilíbrio em qualquer engenhoca que se tente fabricar. Mas, paradoxalmente, nos estamos vivendo em um moto contínuo que é o proprio universo. A força de atração fazem os planetas girarem em torno do sol e este na própria galáxia que por sua vez também se move no espaço infinito, eternamente. Então, curvem-se pois não existe outra explicação, que a única coisa que pode produzir energia do nada é o Criador, pouco importando a crença de cada um. Alguma coisa criou toda a energia do universo em um determinado momento anterior ao próprio big bang e toda a energia produzida está até hoje intácta, embora transformada em incontáveis elementos, inclusive nosso próprio corpo. Em conclusão, esse equilíbrio do universo é insuperável pois se alguém conseguir romper essa lei da física, criando energia do nada, o equilíbrio estará quebrado podendo instalar-se o próprio caos. Contentem-se, portanto, em admirar as coisas que se movem infinitamente, como os elétrons em torno dos átomos, a luz em sua jornada interminável, o universo em movimento e a própria vida em renovação pois perceberão que é sempre a mesma porção de energia agindo em cada momento, sem jamais poder ser eliminada ou acrescentada. Hoje, eu não perco mais o meu tempo tentando decifrar esse enígma pois a pedra de toque da qual falei está muito além de meu poder de alcance, inclusive intelectual.

  8. Ivan Soares Disse:

    Paras os desacreditados vai ai um quebra de ilusão: Meu sogro na cidades de Arapiraca Alagoas está quase terminando a inveção de todos os tempos, a máquina Moto contínuo, que duvidar dessa inveção, q se manifeste agora. tenho fotos.

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